Karl Marx, em a ideologia alemã, confrontou os argumentos metafísicos de Hegel e Feuerbach sobre a ideologia, disse que cabe ao homem o lugar de autor da história, a história só existe como construção humana. Mas, os homens só podem transformar a sua história até certo limite. E esse limite não é dado por condições sobrenaturais, nem pelo debate puro e simples das idéias, mas pelas condições materiais existentes e pela ação que os homens empreendam sobre estas. Essas serão as condições que definirão o grau de modificação de poderá ser imposta pelos indivíduos.
Você pode dizer, e com toda razão, que Marx disse o óbvio, mas é justamente aí que reside a sua genialidade. É interessante notar, como diversas vezes é muito difícil perceber as implicações de uma constatação óbvia.
Steve Jobs morreu recentemente, e foi imediatamente venerado por sua genialidade, bem como por sua capacidade de implementar verdadeiras revoluções tecnológicas. Projetar e construir grandes maravilhas capazes de transformar a vida moderna, causando grande impacto no mundo.
Ipods, Imacs, Iphones e Tablets, como poderíamos viver sem eles? Tudo muito essencial. Mesmo que eu nunca tenha colocado as mãos em um equipamento da Aplle, até hoje. Em nossa sociedade há um grande culto aos homens de empreendimento, pessoas que com o seu enorme talento e expertises natos imprimem os rumos das transformações do mundo. Só nos esquecemos de avaliar o que vem antes deles, deveríamos lembrar do óbvio.
Deveríamos levar em consideração as condições pré-existentes, como disse Marx. Sir Issac Newton era louco, perseguiu e difamou o seu colega matemático e filósofo Godwild Leibnitz mesmo após a morte deste, exigindo ser reconhecido como único inventor do cálculo diferencial (campo avançado da matemática). Porém, em um instante de fina lucidez, reconheceu que para descobrir a lei da Gravitação Universal, havia se servido de incontáveis contribuições e de diversos cientistas, a exemplo de Galileu Galilei e Nicolau Copérnico, “enxerguei longe porque estava sobre os ombros de gigantes”, disse ao final.
Há um livro dedicado ao estudo do óbvio, esse livro é consagrado aos foras de série, aos transformadores. Chama-se “Fora de série, o que está por trás das pessoas de sucesso” [1], e desvenda as causas prováveis que possibilitaram aos desbravadores a condição de transformar a sua geração. Não raro, isso se deveu as oportunidades e privilégios de acesso a informações e experiências não acessíveis as pessoas comuns, suas condições pré-existentes, Marx de novo.
Ao iniciar o livro, o autor faz alusão a um tal de efeito Mateus. No livro de Mateus, capítulo 25 e versículo 29, está dito: “Porque a todo aquele que tem será dado e terá em abundância; mas daquele que não tem, até o que tem será tirado”. E é verdade, está escrito. O autor pesquisa estatísticas de jogadores profissionais do mundo do hóquei, listas dos magnatas mais bem sucedidos dos Estados Unidos e até a biografia da banda de Rock, Os Beatles.
Dessa análise, chega-se a conclusão que, mesmo com o excepcional talento que se possa atribuir a cada um desses personagens, a soma da possibilidade de treinamento, para que se consiga um nível de domínio da arte em nível de excelência, uso de ferramentas adequadas a realização de cada tarefa e um senso de oportunidade que permita ao indivíduo o grau de aderência entre suas aptidões e o que o público ou os seus clientes esperam obter, compõem, efetivamente, o resultado do sucesso. Sem a junção desses fatores, o talento não chegaria nem a se desenvolver, assim são os talentos perdidos que todos conhecemos mundo à fora. Na verdade, um gênio de extrema grandeza pode até mesmo atrapalhar a realização do seu sucesso.
Como um bom exemplo desses talentos desperdiçados por falta de oportunidade ou de compreensão, lembro agora de dois grandes matemáticos, Niels Henrik Abel, norueguês, e o francês, Évariste Galois. Abel desde cedo se revelou um prodígio em matemática, mas acabou morrendo de turbeculose e na pobreza com a idade de 27 anos. Entre os contemporâneos de Abel, houve um profundo desinteresse em reconhecer a sua obra, poucos mesmos eram capazes de julgar a sua matemática, simplesmente sua produção era avançada demais para alguns círculos intelectuais, tão à frente estava a capacidade de seu gênio. Depois, foi assim descrito por Charles Hermite [2], outro grande matemático, “Abel deixou o suficiente para manter os matemáticos ocupados durante quinhentos anos”. Simplesmente incrível.
Évariste Galois viveu intensamente a atividade política do seu tempo, as reverberações da revolução francesa, chegou mesmo a ser preso. Mas também era um gênio da matemática, mesmo se dedicando a ela como atividade secundária, tamanho era o gênio do francês. Com a idade de 16 anos, Galois já submeteu um grande trabalho de matemática a Universidade, porém, esse foi sucessivamente esquecido e perdido antes que pudesse defender a sua obra. Galois morreu logo 3 anos depois, envolvido em um duelo de sangue, sem que visse seu trabalho reconhecido.
Viver significa realizar um trabalho de adequação entre o nosso eu mais pessoal e a cultura. Os valores culturais servirão como as referencias que irão determinar para onde os esforços individuais de adequação irão se direcionar.
Cada sociedade constrói os padrões e valores aceitos na sua organização interna, esses valores determinarão quais os indivíduos serão melhor sucedidos. Essas referências são mutáveis com a passagem do tempo, sendo que em cada época serão reconhecidas por seus padrões e modelos característicos. Nesse contexto, surgem os “fora de série”, aqueles que tiveram a prevalência das características valorizadas por sua sociedade.
Marx desprezava o gênio individual, mesmo ele tendo sido um. Preferia acreditar nas potencialidades e no poder de transformação das massas organizadas. Toda a sua filosofia foi devotada a isso. Entendia que o futuro deveria ser escrito pelas forças coletivas, essas forças construiriam o futuro, o novo mundo. Seriam os marcos reguladores de uma nova cultura. Construções ideológicas, como as de Hegel, que dizem que é no debate intelectual que se constrói e se define a realidade, só serviriam para alienar as massas e mantê-las o poder da dominação. A realidade é essencialmente material, é na ação política onde se constrói a sociedade.
Hoje a filosofia está bem mais rasteira. Na verdade, ela foi substituída mesmo pela abordagem do marketing, o que se aplica hoje são os veículos de comunicação para formar a mentalidade coletiva. É essa propaganda que eleva figuras como Steve Jobs à categoria de mitos e líderes carismáticos, de transformadores do mundo. Na verdade eles não transformaram o mundo, o oposto disso, só contribuíram para que ele se mantivesse o mesmo.
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[1] Outliers – Fora de série. 2008.
[2] Charles Hermite – In: O último teorema de Fermat. 1998.
“Melhor, e muito melhor, é quem conhece tudo só; é bom quem ouve dos que sabem; quem não sabe por si e nem abre o coração à sapiência alheia, este é um homem totalmente inútil” (Hesíodo)
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
A felicidade não faz sentido
Calma que esse texto não é bem o que o título sugere (na verdade, em certo sentido, ele pode ser até pior), o título está colocado como uma espécie de propaganda agressiva. Bem, existe um “vlogueiro” bastante conhecido chamado Felipe Neto, ele sempre posta uns vídeos na internet fazendo alguma crítica, geralmente ao comportamento dos jovens e das ditas “tribos” juvenis, essas críticas sempre começam com o título de “Não faz sentido”.
Aí achei que poderia utilizar desse tema para também falar sobre alguns comportamentos que com o tempo a gente passa a notar nas pessoas, e que são característicos pela reprodução de alguns padrões. Ok, que padrões seriam esses? Bom, quando a gente começa observar como as pessoas vivem e reagem em diversas situações, corriqueiras ou excepcionais, podemos inferir alguns comportamentos padrões.
Hoje em dia, existe uma grande apologia da mídia que pressiona as pessoas a construírem em volta de si um mundo de fantasia, um clima de artificialidade é construído. Um exemplo disso é o sentimento artificial de felicidade. A criação desse clima envolve as pessoas em uma atmosfera de felicidade fabricada, sem substância. O grande poeta Carlos Drummond de Andrade disse que “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”, eu até concordo que a felicidade pode não ter motivos, mas que ela tem que ter causa, ah tem.
O problema é que hoje isso parece não ser mais necessário, se desconhece a causa que mantém as pessoas com esse sentimento de constante ânsia, de necessidade de demonstrar que estão felizes, que as levam a “inventar” motivos que justifiquem um sentimento de felicidade que na realidade inexiste. Os status das redes sociais testificam isso, geralmente estão repletos de declarações de felicidade fingida e os perfis com fotos com rostos de alegria fabricada. As pessoas tiram milhares de fotos de “coraçõezinhos feitos com as mãos”, esses se proliferam na internet feito peste. Também posam para fotos no espelho com sorrisos amarelos forçados, sempre com a mesma pose, ou então sem camisa para mostrar que são fortes e não têm um único neurônio.
Quem afirma que está feliz hoje, parece estar destinado a ser o deprimido de amanhã. Isso acontece, necessariamente, porque não se trata de um verdadeiro sentimento de felicidade. As pessoas oscilam entre a euforia de um dia de sol e palidez de um final de semana chuvoso. Não raro se verifica que os “nicks” que ontem estampavam frases como, “mais um dia feliz”, “pense positivo, Jesus te ama”, “o mundo é bom”, etc. Hoje escrevem, “triste aqui”, “porque as pessoas são ruins?”, “desanimada”, etc. As afirmações de felicidade não representam um motivo ou causa existencial substantiva, são tão sem conteúdo que logo perdem a convicção. Servem apenas como um meio de tentar maquiar o vazio existencial e a angústia dessas pessoas.
É apenas uma construção social, uma construção bem superficial, diga-se de passagem. Um movimento arquitetado pelo marketing para aprisionar pessoas em uma redoma de alienação. Essa redoma cria o mal, mas também elege o seu antídoto, o consumo, o divertimento pueril, o passatempo estéril, a adoração boba de celebridades. A televisão maquina e sustenta uma geração kid (adoradores de bobagens), os ídolos pop (formados na rapidez de um relâmpago), sem conteúdo e sem noção para realizar bizarrices. Na verdade, a bizarrice é a própria “alma do negócio”. É isso, que maravilhosa definição, vivemos na época onde o burlesco e o sem sentido é idolatrado e elevado à categoria de padrão social, triste fim. É tudo um grande negócio, mas para que se mantenha esse negócio é preciso que se crie uma geração de bestializados pelo consumo de lixo, de pessoas incapazes de criticar os produtos que estão consumindo e os valores que sustentam esses produtos.
Faz parte desse processo a criação de uma “cultura do fácil”, o que seria isso, é um sentimento (outro) onde as pessoas se sentem confortáveis para esperarem que os seus objetivos se realizem sem que os mesmos requeiram muito esforço pessoal para que sejam alcançados. Isso funciona da seguinte forma, por exemplo, a pessoa espera passar no vestibular sem estudar com afinco, mais ou menos como que realizado por um milagre divino. Por isso é que existe tanta gente pedindo a Deus força e misericórdia para aprovações em vestibulares e concursos, bem como esperam uma ajuda extra das divindades para obter sucesso no mundo do trabalho. Com tanta incompetência e preguiça mental, é necessário mesmo que ocorra um dilúvio de bênçãos na vida desse povo.
Isso é real, não duvide. Eu mesmo já lecionei aulas de matemática em uma escola pública, aqui, do Estado do Pernambuco, era notório o baixo nível de conhecimento de todas as salas do ensino médio (1°, 2° e 3° anos), e uma aluna no primeiro ano colegial um dia protestou (quando eu digo protestou, significa que ela gritou alto e grosseiramente) porque não conseguia aprender um conteúdo lecionado por mim durante um mês, progressão aritmética (P.A), como eu já sabia de antemão a causa das deficiências dos alunos (falta de estudo) – esse rendimento se reproduzia por todas as disciplinas, diga-se de passagem -, apenas perguntei se ela havia revisado o assunto em algum momento em sua casa, a aluna respondeu tranquilamente que não. Pasmem, a aluna NUNCA havia disponibilizado tempo para estudar o assunto em sua casa e, mesmo assim, esperava sinceramente aprender o assunto! Ou seja, por alguma forma incompreensível e mágica que eu não compreendia, ela esperava entender um assunto sem dispensar esforço, é ou não é um exemplo inequívoco de maluquice? Não pode existir um exemplo melhor para esse tipo de cultura. Claro que isso é incentivado pelos meios de comunicação e reforçado por um sistema de ensino que aprova indiscriminadamente alunos sem as mínimas condições.Ninguém quer se concentrar em mais nada, estudar pra quê? se o sistema me aprova? A mídia vende a idéia de que tudo pode ser conseguido sem esforço, é tudo uma questão de dons genéticos e de popularidade. Dar-se início a uma busca desenfreada pela popularidade, com a imitação de gestos, falas e roupas – extravagantes – de qualquer pessoa em evidência. Disseminam-se as modas de grupos excêntricos como, “emos”, “góticos”, “geeks”, “otakus”, etc. Todas siglas sem sentido e vazias por excelência, chamam a atenção apenas pelo jeito estranho de se vestir.
Parece que ser introspectivo e mais racional quanto a apelações baratas, apresentações de mau gosto e ser intolerante quando à superficialidade e a idolatria da besteira viraram pecados capitais. Vira um chato, essa é a palavra. Parece mesmo ter surgido na sociedade uma doutrina de culto a asneira e a cretinice. Um nivelamento da sociedade pelo que ela tem de pior.
É possível formas de ser feliz sem cair na armadilha de construir uma fantasia alegórica em substituição à dura realidade? Claro que sim, para isso é preciso aceitar como natural que na vida os momentos de tristeza e de felicidade se alternam como a noite e o dia. Que isso é ordinário, que não é digno de nota, ninguém precisa (ou merece) saber disso, poupe os “twits” imbecis. Que não é preciso criar motivos inexistentes para afastar os momentos de tristeza e solidão, eles são parte integrante de qualquer existência. Emoções menores não precisam ser destacadas, isso leva à distração e perca de foco. É preciso saber esperar as grandes conquistas, elas são difíceis e demoradas, precisam de empenho e dedicação, enquanto isso, pode-se se concentrar nos pequenos momentos do dia-a-dia, na rotina. Aproveitar para ler mais, ou para trabalhar mais, deixar que com o tempo apareçam as realizações, junto com os verdadeiros sentimentos, que serão sustentados por um profundo conhecimento, fruto da dedicação. Tudo isso providenciará uma felicidade plena e duradoura. Ela vem naturalmente, não precisa declarar.
Aí achei que poderia utilizar desse tema para também falar sobre alguns comportamentos que com o tempo a gente passa a notar nas pessoas, e que são característicos pela reprodução de alguns padrões. Ok, que padrões seriam esses? Bom, quando a gente começa observar como as pessoas vivem e reagem em diversas situações, corriqueiras ou excepcionais, podemos inferir alguns comportamentos padrões.
Hoje em dia, existe uma grande apologia da mídia que pressiona as pessoas a construírem em volta de si um mundo de fantasia, um clima de artificialidade é construído. Um exemplo disso é o sentimento artificial de felicidade. A criação desse clima envolve as pessoas em uma atmosfera de felicidade fabricada, sem substância. O grande poeta Carlos Drummond de Andrade disse que “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”, eu até concordo que a felicidade pode não ter motivos, mas que ela tem que ter causa, ah tem.
O problema é que hoje isso parece não ser mais necessário, se desconhece a causa que mantém as pessoas com esse sentimento de constante ânsia, de necessidade de demonstrar que estão felizes, que as levam a “inventar” motivos que justifiquem um sentimento de felicidade que na realidade inexiste. Os status das redes sociais testificam isso, geralmente estão repletos de declarações de felicidade fingida e os perfis com fotos com rostos de alegria fabricada. As pessoas tiram milhares de fotos de “coraçõezinhos feitos com as mãos”, esses se proliferam na internet feito peste. Também posam para fotos no espelho com sorrisos amarelos forçados, sempre com a mesma pose, ou então sem camisa para mostrar que são fortes e não têm um único neurônio.
Quem afirma que está feliz hoje, parece estar destinado a ser o deprimido de amanhã. Isso acontece, necessariamente, porque não se trata de um verdadeiro sentimento de felicidade. As pessoas oscilam entre a euforia de um dia de sol e palidez de um final de semana chuvoso. Não raro se verifica que os “nicks” que ontem estampavam frases como, “mais um dia feliz”, “pense positivo, Jesus te ama”, “o mundo é bom”, etc. Hoje escrevem, “triste aqui”, “porque as pessoas são ruins?”, “desanimada”, etc. As afirmações de felicidade não representam um motivo ou causa existencial substantiva, são tão sem conteúdo que logo perdem a convicção. Servem apenas como um meio de tentar maquiar o vazio existencial e a angústia dessas pessoas.
É apenas uma construção social, uma construção bem superficial, diga-se de passagem. Um movimento arquitetado pelo marketing para aprisionar pessoas em uma redoma de alienação. Essa redoma cria o mal, mas também elege o seu antídoto, o consumo, o divertimento pueril, o passatempo estéril, a adoração boba de celebridades. A televisão maquina e sustenta uma geração kid (adoradores de bobagens), os ídolos pop (formados na rapidez de um relâmpago), sem conteúdo e sem noção para realizar bizarrices. Na verdade, a bizarrice é a própria “alma do negócio”. É isso, que maravilhosa definição, vivemos na época onde o burlesco e o sem sentido é idolatrado e elevado à categoria de padrão social, triste fim. É tudo um grande negócio, mas para que se mantenha esse negócio é preciso que se crie uma geração de bestializados pelo consumo de lixo, de pessoas incapazes de criticar os produtos que estão consumindo e os valores que sustentam esses produtos.
Faz parte desse processo a criação de uma “cultura do fácil”, o que seria isso, é um sentimento (outro) onde as pessoas se sentem confortáveis para esperarem que os seus objetivos se realizem sem que os mesmos requeiram muito esforço pessoal para que sejam alcançados. Isso funciona da seguinte forma, por exemplo, a pessoa espera passar no vestibular sem estudar com afinco, mais ou menos como que realizado por um milagre divino. Por isso é que existe tanta gente pedindo a Deus força e misericórdia para aprovações em vestibulares e concursos, bem como esperam uma ajuda extra das divindades para obter sucesso no mundo do trabalho. Com tanta incompetência e preguiça mental, é necessário mesmo que ocorra um dilúvio de bênçãos na vida desse povo.
Isso é real, não duvide. Eu mesmo já lecionei aulas de matemática em uma escola pública, aqui, do Estado do Pernambuco, era notório o baixo nível de conhecimento de todas as salas do ensino médio (1°, 2° e 3° anos), e uma aluna no primeiro ano colegial um dia protestou (quando eu digo protestou, significa que ela gritou alto e grosseiramente) porque não conseguia aprender um conteúdo lecionado por mim durante um mês, progressão aritmética (P.A), como eu já sabia de antemão a causa das deficiências dos alunos (falta de estudo) – esse rendimento se reproduzia por todas as disciplinas, diga-se de passagem -, apenas perguntei se ela havia revisado o assunto em algum momento em sua casa, a aluna respondeu tranquilamente que não. Pasmem, a aluna NUNCA havia disponibilizado tempo para estudar o assunto em sua casa e, mesmo assim, esperava sinceramente aprender o assunto! Ou seja, por alguma forma incompreensível e mágica que eu não compreendia, ela esperava entender um assunto sem dispensar esforço, é ou não é um exemplo inequívoco de maluquice? Não pode existir um exemplo melhor para esse tipo de cultura. Claro que isso é incentivado pelos meios de comunicação e reforçado por um sistema de ensino que aprova indiscriminadamente alunos sem as mínimas condições.Ninguém quer se concentrar em mais nada, estudar pra quê? se o sistema me aprova? A mídia vende a idéia de que tudo pode ser conseguido sem esforço, é tudo uma questão de dons genéticos e de popularidade. Dar-se início a uma busca desenfreada pela popularidade, com a imitação de gestos, falas e roupas – extravagantes – de qualquer pessoa em evidência. Disseminam-se as modas de grupos excêntricos como, “emos”, “góticos”, “geeks”, “otakus”, etc. Todas siglas sem sentido e vazias por excelência, chamam a atenção apenas pelo jeito estranho de se vestir.
Parece que ser introspectivo e mais racional quanto a apelações baratas, apresentações de mau gosto e ser intolerante quando à superficialidade e a idolatria da besteira viraram pecados capitais. Vira um chato, essa é a palavra. Parece mesmo ter surgido na sociedade uma doutrina de culto a asneira e a cretinice. Um nivelamento da sociedade pelo que ela tem de pior.
É possível formas de ser feliz sem cair na armadilha de construir uma fantasia alegórica em substituição à dura realidade? Claro que sim, para isso é preciso aceitar como natural que na vida os momentos de tristeza e de felicidade se alternam como a noite e o dia. Que isso é ordinário, que não é digno de nota, ninguém precisa (ou merece) saber disso, poupe os “twits” imbecis. Que não é preciso criar motivos inexistentes para afastar os momentos de tristeza e solidão, eles são parte integrante de qualquer existência. Emoções menores não precisam ser destacadas, isso leva à distração e perca de foco. É preciso saber esperar as grandes conquistas, elas são difíceis e demoradas, precisam de empenho e dedicação, enquanto isso, pode-se se concentrar nos pequenos momentos do dia-a-dia, na rotina. Aproveitar para ler mais, ou para trabalhar mais, deixar que com o tempo apareçam as realizações, junto com os verdadeiros sentimentos, que serão sustentados por um profundo conhecimento, fruto da dedicação. Tudo isso providenciará uma felicidade plena e duradoura. Ela vem naturalmente, não precisa declarar.
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Ele é o Dick
Paródia com o 'Rapper' Richard Dawkins e os 'backing vocals' PZ Myers, Eugenie Scott, Daniel Dennett, Sam Harris e Christopher Hitchens.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
O Grande Irmão
Ah, lá vem mais um Big Brother. Mal podíamos esperar para voltar a assistir as peripécias do pererecante Pedro Bial. O intrépido animador e sua trupe nos aguardam com mais um show de banalidades divertidas, baixarias memoráveis e emocionantes paredões.
O assunto já é manjado e comum na pauta de comentaristas e blogueiros (principalmente nas colunas de humor). Mas, lembrando-me do grande Raúl Seixas em música bastante conhecida [1], “eu também resolvi dá uma queixadinha” sobre o assunto, “mesmo não tendo sido o primeiro” a pensar no tema.
Ao se falar de Big Brother, devemos dar crédito ao pai da idéia, não do programa. Acredito que a primazia deve-se a George Orwell ao escrever 1984 [2], ainda não consegui terminar de ler o livro. Escrito em 1949 pelo autor inglês, Erie Arthur Blair, que assumiu o pseudônimo de George Orwell. O livro se transformou em Best Seller da literatura mundial e é um dos grandes exemplos de arte engajada que temos em nossa história.
O autor constrói um romance que serve como metáfora para a denúncia dos sistemas totalitários, como o do socialismo instalado na União Soviética e o do Nazismo na Alemanha. A sua narrativa descreve um mundo dividido entre super potências em permanente disputa, onde a vida de Winston Smith, funcionário de um dos países em guerra, é vigiada a cada instante por uma tela gigante e onipresente (a Teletela). Todos, nesse mundo “irreal”, devem obediência ao Estado, que também é chamado de Big Brother (Grande Irmão). Winston tem sua vida vasculhada 24 horas por dia pelas teletelas, até mesmo seus pensamentos são patrulhados e controlados pelo Estado, através da tortura.
Também aqui no Brasil, passamos por uma realidade não muito diferente da experimentada na ficção por Winston Smith. Um dos principais expedientes da ditadura militar, além das subseqüentes e eficientes aplicações de tortura, era o da permanente vigilância dos meios de comunicação, para ao mesmo tempo em que vedar a veiculação de notícias que denunciassem as atrocidades cometidas pelo sistema, pressionar os conglomerados jornalísticos para distorcer a realidade nacional.
No Brasil, a exploração da comunicação televisiva é feita na forma de concessão pública, nessa modalidade cabe ao governo deliberar nas mãos de quem ficarão os canais de televisão. Durante o regime militar e até a promulgação da constituinte de 1988, essa atividade era desempenhada exclusivamente pelo Presidente da República, período em que se praticou largamente a perseguição e o cancelamento das concessões das emissoras de televisão que tinham linha editorial destoante com as diretrizes dos militares, ao tempo em que essas concessões foram repartidas entre os grupos empresariais pró-militarismo. Assim aconteceu com Roberto Marinho, fundador da Rede Globo de Televisão. Também com Antônio Carlos Magalhães, na Bahia, que recebeu a concessão da rede Bahia de Televisão, como paga por seus inequívocos serviços à causa militar.
A própria Rede Globo, é acusada de jamais, durante toda a vigência do período de exceção, veicular em seus telejornais a palavra *ditadura*. Essa mesma Globo, durante as primeiras eclosões das manifestações populares de apoio ao movimento de diretas já, pressionada a divulgar o movimento em virtude da grande concentração de pessoas na Praça da Sé, maquiou a notícia com a informação de que as pessoas ali reunidas comemoravam o aniversário de 430 anos da cidade de São Paulo.
Por todo esse poder de camuflar a realidade, de esconder os fatos e até de criar novas mentalidades, Roberto Marinho foi retratado em um célebre documentário chamado de Muito além do cidadão Kane [3]. Nesse trabalho, o fundador da rede Globo de televisão é retratado como a versão brasileira (turbinada por esteróides) do magnata das telecomunicações americano William Randolph Heart [4], que foi dono de um conglomerado que englobava 28 jornais, 18 revistas e emissoras de rádio. Esse, por sua vez, era considerado como capaz de mudar toda a mentalidade da sociedade através de suas notícias.
Todo esse poderio caiu como uma luva aos propósitos da ditadura militar. Assim aconteceu durante um longo período, onde políticos dissidentes eram exilados, obrigados a deixar o país com suas famílias, professores de universidades eram cassados e aposentados compulsoriamente, onde faculdades eram invadidas, estudantes eram seqüestrados e mortos (tudo isso sem a veiculação nos canais televisivos) e qualquer cidadão poderia ser preso a qualquer momento sem mandado judicial, apenas por uma simples acusação de conspiração contra o sistema (terrorismo). A acusação poderia ser oriunda de denúncia anônima, e, sabem como era investigada a possível veracidade dessas denúncias? Por tortura.
Mas não estamos em um Estado totalitário, vivemos na democracia, em uma realidade de liberdade e de livre iniciativa, pelo menos aparentemente. O Grande Irmão de hoje não é mais um estado repressor, controlador, tirânico. Estamos em uma sociedade que mantém uma relação de poder para com os indivíduos de uma forma muito mais sutil e complexa, que pertence a uma outra dinâmica social e política, falamos dos meandros espinhosos da antropologia, da cultura. Da cultura de massa.
O grande acesso aos meios de comunicação que se desenvolveu após a década de 70, foi possibilitado pelo desenvolvimento da indústria de produção em massa, que conseguiu fornecer aparelhos eletrodomésticos com preços cada vez mais acessíveis, aliado a uma política econômica de elevação da capacidade de consumo das classes que outrora estiveram apartadas da posse desses aparelhos, produziu uma enorme pressão por uma diversificação na produção cultural e de entretenimento das televisões.
Essa mudança se deveu, em parte, a política adotada pelas empresas de publicidade e redes de TV, que incorporaram a metodologia de produzir eventos televisivos que resumisse as informações as frações menores e mais “palatáveis” aos pensamentos, sem a necessidade de uma maior reflexão. A tônica adotada é a de uma mensagem superficial, de fácil assimilação. Essa é a linguagem mesma do telejornalismo.
Para ilustrar essa imagem, é bem representativo um episódio que envolveu o apresentador do Jornal Nacional e editor chefe de redação, William Bonner. Em dezembro de 2005, a revista Carta Capital [5] veiculou matéria, onde um professor de jornalismo de São Paulo, após visitar com grupo de alunos à redação da Rede Globo, denunciava que Bonner pauta a programação do Jornal de forma a esvaziar os conteúdos mais complexos, ou seja, “enxugar” as informações mais difíceis, tratando tudo com muita superficialidade. Porém, o que é mais revelador, é a justificativa relatada no momento, essas “alterações”, segundo Bonner, se faziam necessárias para que a informação pudesse ser entendida pela maior parte dos telespectadores do telejornal que, seriam do tipo Homer Simpson (o personagem do desenho, ignorante e atabalhoado).
A televisão reina absoluta como única fonte de informação para a maior parte dos brasileiros, àqueles que ainda procuram um mínino de informação, a norma é o deleite com a cultura inútil e desinformativa. Mas, nesses tempos bicudos, quem tem tempo mesmo para algo trabalhoso como a leitura e reflexão? Não é mesmo?! Vivemos no tempo da cultura enlatada, pronta, pasteurizada. Nossas informações precisam ser passadas visualmente, desenhadas. Perdemos a capacidade de concentração para a leitura de textos, não temos tempo. As imagens são alucinantes, tão coloridas, tão cativantes. As figuras cintilam na tela com uma velocidade vertiginosa. Definitivamente, não há tempo para pensar, há quem pense por nós.
Para utilizar a frase de Louis Quesnel, “Os publicitários são os verdadeiros filósofos de um mundo sem filosofia”, recordo de um depoimento de Washington Olivetto, onde o mesmo falava que, no Brasil, dava-se uma importância e um destaque desmedido aos publicitários. Em outro depoimento, Olivetto opina que, o Brasil é, em grande parte, fruto de um projeto midiático, quase que “fabricado” por uma campanha publicitária.
No mundo do passageiro, do transitório, só o que aparece na televisão é digno de atenção. O próprio Pedro Bial se refere aos integrantes “da casa” como os nossos heróis. Sim, os heróis modernos são as celebridades instantâneas, são as personalidades vazias e de boca suja. Hoje, o espelho da garotada é o cantor de pagode ou de rappe e o jogador de futebol, que é milionário e todo ano troca de mulher (quase sempre loira), e de nada adianta se o jogador é íntimo de traficante ou se é matador de mulher, defeitos “menores”. As meninas, podem se basear pela “Tati quebra barraco”, as cachorras do Funck e as mulheres salada de fruta: melancia, mamão, jaca, abacaxi, etc, etc, etc.
Em 1994, Francis Fukuyama decretou o fim da história [6], o que para ele significava um período de ocaso das ideologias, uma época de morte dos grandes ideais de transformação da sociedade. A humanidade tinha tentado e desistido das suas utopias universais e estava agora resignada a realização de interesses menores, a consumação de metas pessoais, não obstante ilusórias, surgia a era do conformismo.
Essa mentalidade é excelentemente retratada em uma passagem de Alberto Dines, “Convicções descartáveis, estilo zapping, começam em um talk show e terminam num shoping. Podem preencher necessidades, até encher vidas, mas não chegam a transbordar para compor uma civilização”. Precisamos realizar uma outra revolução, essa é a da educação, onde cada pessoa seja instrumentalizada para desvendar as “idéias” que estão nos vendendo por detrás do divertimento pueril e bobo. Podemos assistir ao Big Brother, com as suas baixarias e vulgarização do grotesco, mas não podemos perder de vista que nossos verdadeiros “heróis” devem ser o livro e a reflexão.
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[1] Raúl Seixas. “Eu também vou reclamar”. http://letras.terra.com.br/raul-seixas/48311/
[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/1984_%28livro%29
[3] Muito além do cidadão Kane. http://pt.wikipedia.org/wiki/Beyond_Citizen_Kane
[4] Cidadão Kane. http://pt.wikipedia.org/wiki/Citizen_Kane
[5] http://www.db.com.br/noticias/?56617
[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/Fim_da_hist%C3%B3ria
O assunto já é manjado e comum na pauta de comentaristas e blogueiros (principalmente nas colunas de humor). Mas, lembrando-me do grande Raúl Seixas em música bastante conhecida [1], “eu também resolvi dá uma queixadinha” sobre o assunto, “mesmo não tendo sido o primeiro” a pensar no tema.
Ao se falar de Big Brother, devemos dar crédito ao pai da idéia, não do programa. Acredito que a primazia deve-se a George Orwell ao escrever 1984 [2], ainda não consegui terminar de ler o livro. Escrito em 1949 pelo autor inglês, Erie Arthur Blair, que assumiu o pseudônimo de George Orwell. O livro se transformou em Best Seller da literatura mundial e é um dos grandes exemplos de arte engajada que temos em nossa história.
O autor constrói um romance que serve como metáfora para a denúncia dos sistemas totalitários, como o do socialismo instalado na União Soviética e o do Nazismo na Alemanha. A sua narrativa descreve um mundo dividido entre super potências em permanente disputa, onde a vida de Winston Smith, funcionário de um dos países em guerra, é vigiada a cada instante por uma tela gigante e onipresente (a Teletela). Todos, nesse mundo “irreal”, devem obediência ao Estado, que também é chamado de Big Brother (Grande Irmão). Winston tem sua vida vasculhada 24 horas por dia pelas teletelas, até mesmo seus pensamentos são patrulhados e controlados pelo Estado, através da tortura.
Também aqui no Brasil, passamos por uma realidade não muito diferente da experimentada na ficção por Winston Smith. Um dos principais expedientes da ditadura militar, além das subseqüentes e eficientes aplicações de tortura, era o da permanente vigilância dos meios de comunicação, para ao mesmo tempo em que vedar a veiculação de notícias que denunciassem as atrocidades cometidas pelo sistema, pressionar os conglomerados jornalísticos para distorcer a realidade nacional.
No Brasil, a exploração da comunicação televisiva é feita na forma de concessão pública, nessa modalidade cabe ao governo deliberar nas mãos de quem ficarão os canais de televisão. Durante o regime militar e até a promulgação da constituinte de 1988, essa atividade era desempenhada exclusivamente pelo Presidente da República, período em que se praticou largamente a perseguição e o cancelamento das concessões das emissoras de televisão que tinham linha editorial destoante com as diretrizes dos militares, ao tempo em que essas concessões foram repartidas entre os grupos empresariais pró-militarismo. Assim aconteceu com Roberto Marinho, fundador da Rede Globo de Televisão. Também com Antônio Carlos Magalhães, na Bahia, que recebeu a concessão da rede Bahia de Televisão, como paga por seus inequívocos serviços à causa militar.
A própria Rede Globo, é acusada de jamais, durante toda a vigência do período de exceção, veicular em seus telejornais a palavra *ditadura*. Essa mesma Globo, durante as primeiras eclosões das manifestações populares de apoio ao movimento de diretas já, pressionada a divulgar o movimento em virtude da grande concentração de pessoas na Praça da Sé, maquiou a notícia com a informação de que as pessoas ali reunidas comemoravam o aniversário de 430 anos da cidade de São Paulo.
Por todo esse poder de camuflar a realidade, de esconder os fatos e até de criar novas mentalidades, Roberto Marinho foi retratado em um célebre documentário chamado de Muito além do cidadão Kane [3]. Nesse trabalho, o fundador da rede Globo de televisão é retratado como a versão brasileira (turbinada por esteróides) do magnata das telecomunicações americano William Randolph Heart [4], que foi dono de um conglomerado que englobava 28 jornais, 18 revistas e emissoras de rádio. Esse, por sua vez, era considerado como capaz de mudar toda a mentalidade da sociedade através de suas notícias.
Todo esse poderio caiu como uma luva aos propósitos da ditadura militar. Assim aconteceu durante um longo período, onde políticos dissidentes eram exilados, obrigados a deixar o país com suas famílias, professores de universidades eram cassados e aposentados compulsoriamente, onde faculdades eram invadidas, estudantes eram seqüestrados e mortos (tudo isso sem a veiculação nos canais televisivos) e qualquer cidadão poderia ser preso a qualquer momento sem mandado judicial, apenas por uma simples acusação de conspiração contra o sistema (terrorismo). A acusação poderia ser oriunda de denúncia anônima, e, sabem como era investigada a possível veracidade dessas denúncias? Por tortura.
Mas não estamos em um Estado totalitário, vivemos na democracia, em uma realidade de liberdade e de livre iniciativa, pelo menos aparentemente. O Grande Irmão de hoje não é mais um estado repressor, controlador, tirânico. Estamos em uma sociedade que mantém uma relação de poder para com os indivíduos de uma forma muito mais sutil e complexa, que pertence a uma outra dinâmica social e política, falamos dos meandros espinhosos da antropologia, da cultura. Da cultura de massa.
O grande acesso aos meios de comunicação que se desenvolveu após a década de 70, foi possibilitado pelo desenvolvimento da indústria de produção em massa, que conseguiu fornecer aparelhos eletrodomésticos com preços cada vez mais acessíveis, aliado a uma política econômica de elevação da capacidade de consumo das classes que outrora estiveram apartadas da posse desses aparelhos, produziu uma enorme pressão por uma diversificação na produção cultural e de entretenimento das televisões.
Essa mudança se deveu, em parte, a política adotada pelas empresas de publicidade e redes de TV, que incorporaram a metodologia de produzir eventos televisivos que resumisse as informações as frações menores e mais “palatáveis” aos pensamentos, sem a necessidade de uma maior reflexão. A tônica adotada é a de uma mensagem superficial, de fácil assimilação. Essa é a linguagem mesma do telejornalismo.
Para ilustrar essa imagem, é bem representativo um episódio que envolveu o apresentador do Jornal Nacional e editor chefe de redação, William Bonner. Em dezembro de 2005, a revista Carta Capital [5] veiculou matéria, onde um professor de jornalismo de São Paulo, após visitar com grupo de alunos à redação da Rede Globo, denunciava que Bonner pauta a programação do Jornal de forma a esvaziar os conteúdos mais complexos, ou seja, “enxugar” as informações mais difíceis, tratando tudo com muita superficialidade. Porém, o que é mais revelador, é a justificativa relatada no momento, essas “alterações”, segundo Bonner, se faziam necessárias para que a informação pudesse ser entendida pela maior parte dos telespectadores do telejornal que, seriam do tipo Homer Simpson (o personagem do desenho, ignorante e atabalhoado).
A televisão reina absoluta como única fonte de informação para a maior parte dos brasileiros, àqueles que ainda procuram um mínino de informação, a norma é o deleite com a cultura inútil e desinformativa. Mas, nesses tempos bicudos, quem tem tempo mesmo para algo trabalhoso como a leitura e reflexão? Não é mesmo?! Vivemos no tempo da cultura enlatada, pronta, pasteurizada. Nossas informações precisam ser passadas visualmente, desenhadas. Perdemos a capacidade de concentração para a leitura de textos, não temos tempo. As imagens são alucinantes, tão coloridas, tão cativantes. As figuras cintilam na tela com uma velocidade vertiginosa. Definitivamente, não há tempo para pensar, há quem pense por nós.
Para utilizar a frase de Louis Quesnel, “Os publicitários são os verdadeiros filósofos de um mundo sem filosofia”, recordo de um depoimento de Washington Olivetto, onde o mesmo falava que, no Brasil, dava-se uma importância e um destaque desmedido aos publicitários. Em outro depoimento, Olivetto opina que, o Brasil é, em grande parte, fruto de um projeto midiático, quase que “fabricado” por uma campanha publicitária.
No mundo do passageiro, do transitório, só o que aparece na televisão é digno de atenção. O próprio Pedro Bial se refere aos integrantes “da casa” como os nossos heróis. Sim, os heróis modernos são as celebridades instantâneas, são as personalidades vazias e de boca suja. Hoje, o espelho da garotada é o cantor de pagode ou de rappe e o jogador de futebol, que é milionário e todo ano troca de mulher (quase sempre loira), e de nada adianta se o jogador é íntimo de traficante ou se é matador de mulher, defeitos “menores”. As meninas, podem se basear pela “Tati quebra barraco”, as cachorras do Funck e as mulheres salada de fruta: melancia, mamão, jaca, abacaxi, etc, etc, etc.
Em 1994, Francis Fukuyama decretou o fim da história [6], o que para ele significava um período de ocaso das ideologias, uma época de morte dos grandes ideais de transformação da sociedade. A humanidade tinha tentado e desistido das suas utopias universais e estava agora resignada a realização de interesses menores, a consumação de metas pessoais, não obstante ilusórias, surgia a era do conformismo.
Essa mentalidade é excelentemente retratada em uma passagem de Alberto Dines, “Convicções descartáveis, estilo zapping, começam em um talk show e terminam num shoping. Podem preencher necessidades, até encher vidas, mas não chegam a transbordar para compor uma civilização”. Precisamos realizar uma outra revolução, essa é a da educação, onde cada pessoa seja instrumentalizada para desvendar as “idéias” que estão nos vendendo por detrás do divertimento pueril e bobo. Podemos assistir ao Big Brother, com as suas baixarias e vulgarização do grotesco, mas não podemos perder de vista que nossos verdadeiros “heróis” devem ser o livro e a reflexão.
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[1] Raúl Seixas. “Eu também vou reclamar”. http://letras.terra.com.br/raul-seixas/48311/
[2] http://pt.wikipedia.org/wiki/1984_%28livro%29
[3] Muito além do cidadão Kane. http://pt.wikipedia.org/wiki/Beyond_Citizen_Kane
[4] Cidadão Kane. http://pt.wikipedia.org/wiki/Citizen_Kane
[5] http://www.db.com.br/noticias/?56617
[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/Fim_da_hist%C3%B3ria
segunda-feira, 13 de setembro de 2010
Roleta cósmica.
Roberto Cesar
Já foi dito uma vez que, cada nova geração tem a sensação que o período de sua existência é o mais decisivo para a história da humanidade. Concordo inteiramente com essa afirmativa, e, do meu lado, faço questão de afirmar e expor os motivos do meu contentamento com o atual estágio do desenvolvimento da civilização.
Pra mim, viver no século XXI é extremamente empolgante, refletir sobre o quanto de avanço fizemos, o número de descobertas, a quantidade de conhecimento legada pelas gerações anteriores, e, principalmente, o uso que podemos fazer de tudo isso, me deixa realmente motivado, acho que nisto compartilho do sentimento de Carl Sagan [1]. Do século XVI para cá, conseguimos dobrar a expectativa média de vida da humanidade, isso devido, dentre outros fatores, ao desenvolvimento e avanço dos sistemas de saneamento básico e da invenção e uso de medicamentos, como as vacinas e os antibióticos. No campo da tecnologia, a humanidade conseguiu mandar o primeiro homem à lua, criar os computadores pessoais com processadores de textos à prova de erros de digitação e colocar um telescópio fora da atmosfera terrestre, que possibilitou a confirmação de inúmeras hipóteses científicas sobre o universo. A despeito da degradação ambiental, da pobreza e dos conflitos étnico-religiosos, temos o conhecimento de que precisamos para tomar uma decisão racional sobre o nosso futuro, o que precisamos é de pressão popular e vontade política para realizar as mudanças necessárias em prol do bem-estar humano. A ciência fez a sua parte.
Não obstante todo o progresso e maior conhecimento da natureza, surgem uma série numerosa de novas áreas de investigação e campos científicos para serem desbravados. E isso é bom, indica que os cientistas ainda terão seus empregos garantidos por muito tempo. Um desses grandes campos é o estudo da origem e propriedade do universo.
Talvez uma das teorias científicas mais bem conhecida, e das mais sólidas, seja a teoria do Big Bang. Essa teoria foi comprovada pelo astrônomo Edwin Hubble [2] (o que deu nome ao telescópio), e assinala que as galáxias estão todas se distanciando umas das outras e em velocidades crescentes. Essa descoberta torna possível até mesmo a determinação da velocidade em que essas galáxias estão se distanciando, isso é possível graças a uma ciência chamada de espectroscopia, que analisa a variação de luz emitida pelos corpos materiais.
Como sabemos que algo está se afastando de nós? Podemos usar a análise sonora, quando um carro que som está se aproximando de nós ouvimos um som grave, e quando ele vai se distanciando, ouvimos o som de forma diferente, um som agudo, isso tem o nome de efeito Doppler. Para as galáxias funciona da mesma forma, só que não ouvimos as galáxias, analisamos suas ondas de luz, que se comportam de forma equivalente as ondas sonoras. Quanto uma galáxia se afasta de nós, a cor da sua luz emitida (analisada por aparelhos) vai ficando cada vez mais avermelhada, assim consegui-se identificar o seu afastamento.
Com base nessas medições, pôde-se chegar a uma idade aproximada do universo, pois, se as galáxias estão todas se afastando umas das outras, implica que um dia estiveram unidas, juntas, e suas velocidade podem ser estimadas e podemos saber quando isso ocorreu. Esse cálculo estima em pelo menos 13,7 [3] bilhões de anos a idade do nosso universo e tudo o que existe nele.
Então, nos encontramos aqui, logo após a grande *expansão*, para se usar o termo correto, temos a criação das leis da física e da matemática que governam as partículas e toda a natureza, o próprio tempo é criado nesse instante. Não se sabe o que existia antes disso. Talvez tudo tenha começado a partir desse momento, ou, talvez, tudo sempre tenha existido, só que de um modo diferente, pois que temos um evento totalmente singular dando origem ao nosso universo. Nesse ponto, nem o próprio tempo existia, não havia a contagem do tempo. Esse momento de criação da matéria e de suas leis, também é chamado de *singularidade* [4], as leis do nosso universo não são aplicáveis a esse momento.
Esta constatação abriu um grande vácuo no nosso conhecimento, e deixa um enorme campo para indagações, podemos nos perguntar quem somos? Qual é a propriedade do universo? O que é a vida? Podemos aproveitar esse estado de “nova consciência” para nos localizarmos enquanto seres humanos. Nesse contexto, o astrônomo Carl Sagan destaca o inigualável poder de conscientização gerado pelo conhecimento científico, e faz um incrível exercício de reflexão sobre a espécie humana ao nos localizar em um calendário hipotético, esse exercício chama-se calendário cósmico e serve para nos revelar qual a real importância da nossa “criação”, e qual o valor relativo do ser humano em termos universais.
Sagan compara a história do universo a metáfora de um ano cósmico, sendo o primeiro dia do ano (1° de janeiro) coincidente com a grande expansão do nosso universo, nessa escala cada mês corresponderá a, aproximadamente, 1 Bilhão de anos [idade do universo (13,7 bilhões) dividido por 12 meses]. O planeta terra (com idade aproximada de 4,5 bilhões de anos – com estimativas oriundas de cálculos com base no decaimento radioativo dos elementos químicos existentes nas rochas) só teria se formado passados 2/3 do ano cósmico, isto é, na metade mês de setembro! Ou seja, a criação do nosso sistema solar, e com ele o nosso planeta, só se deu passados mais da metade da história do universo. Está curioso para saber qual seria a data do aparecimento da vida humana no cenário universal? Poupemo-nos dos “detalhes sórdidos” sobre a história da origem dos primeiros organismos replicadores, dos primeiros seres vivos, do surgimento dos répteis, das plantas e até dos insetos, todos esses nos antecedem na habitação do planeta terra. A vida humana (consideraremos para o caso o surgimento do homo sapiens sapiens [5], que data de, aproximadamente, 200 mil anos), nesse caso, a chegada do ser humano ao universo só aconteceria na noite de 31 de dezembro (último dia do nosso ano cósmico), por volta das 23 horas e 50 minutos!! Incrível!!
Não sei quanto a vocês, mas estou achando que não houve lá muito propósito ou senso de urgência no aparecimento humano na terra não, e você? Que acha? Tudo que nós vivemos e registramos até hoje, incluindo-se aí as pinturas rupestres, estão inseridos apenas nos últimos 10 minutos finais da história do universo vivida até nossos dias. Realmente desnorteador, não é? Parece que o “universo” não estava lá muito preocupado com a nossa possível existência não.
Podemos ir mais fundo ainda, se somos tão pequeninos no universo, será que existem outros povos, outras formas de vida em lugares distantes, será, ainda, que a nossa existência é real? Como saber se é real, se, ao que tudo indica, a vida se formou da matéria inorgânica de uma “sopa de proteínas”? Sabe-se que tudo que existe é formado dos mesmos elementos constitutivos, átomos de carbono, ferro, oxigênio, hidrogênio, hélio, sódio, etc. Todos formados no interior de estrelas “ferventes”. Tudo que existe é fruto dos mesmos elementos químicos, prótons, elétrons e nêutrons (para ficar só no básico) assumem configurações diversas para formar tudo que há no universo.
Dessa forma, fica difícil até definir o que seja a mente humana. Se tudo o que “mentalizamos” são reações, impulsos elétricos (elétrons em movimento) desencadeados entre os neurônios (células cerebrais), que, fundamentalmente, são “apenas” reações químicas disparadas no nosso cérebro. Todo esse processo, por sua vez, é oriundo dos estímulos sensoriais advindos do meio ambiente na forma de luz, calor, frio, dor, etc. Que também são interpretados através de impulsos elétricos.
Portanto, o que percebemos através da nossa mente, pode não corresponder ao real. Vez que entre o processo de recepção dos sinais, transformação em impulsos elétricos, e análise da informação, pode-se perder informações, ou, até mesmo, ter todo esse acervo de sinais adulterado. Sim, pode acontecer, por que não? A acupuntura é uma técnica que consiste exatamente em “criar” uma nova realidade ao cérebro; o seu princípio baseia-se na instalação de agulhas em pontos pré-identificados do corpo de forma a broquear os sinais elétricos que levam a informação da dor ao cérebro, sem essa “informação” a dor simplesmente “some”.
Tudo que nosso cérebro conhece da realidade, é percebido não diretamente, mas por meio de impulsos elétricos. Todo esse acervo de informação pode ser manipulado, não se pode ter garantias. Nesse cenário de realidade virtual e ficção científica, criações como a do filme Matrix tornam-se cada vez mais próximas da realidade. Poderíamos, realmente, viver em uma Matrix sem nunca se dar conta, eternamente escravizados pelos nossos sentidos.
Mas o número de esquisitices que são suscitadas pela evolução do conhecimento da estrutura da matéria ainda não terminou. A pesquisa e o questionamento sobre o que vem antes e depois do Big Bang, levou cientistas a hipóteses mais exóticas e extravagantes.
Uma delas diz, que se a massa existente no universo for maior que um dado valor crítico, toda essa massa (o universo todo) se desmoronará sob a ação da força de sua própria gravidade. O universo se curvará para dentro de si mesmo, até se condensar em um ínfimo ponto com densidade infinita, contendo toda a sua matéria, o universo terá fim em uma nova singularidade. Esse evento tem até um nome, é chamado de Big Crunch [6].
Essa hipótese abre uma “brecha” para um processo cíclico de geração do universo. O universo poderia alternar eventos de criação e extinção, dando corpo a um sistema eterno. No Big Crunch, novamente, todas as leis da física seriam anuladas, e seriam embaralhadas. O mundo físico é permeado de constantes fundamentais, temos a velocidade da luz, que tem um valor padrão de 300.000 km/s, velocidade que nenhum corpo macroscópico dentro do universo pode igualar; temos um valor constante para a capacidade de radiação eletromagnética; cada elemento químico (independente da sua localização no universo) apresenta valores característicos para o seu decaimento radioativo. Tudo isso é válido para o nosso universo. Na singularidade, esses valores são embaralhados, são aniquilados, o próprio tempo passa a não existir.
Em um próximo ciclo de “criação” do universo, é possível que essas constantes venham “sintonizadas” com valores totalmente diferentes dos agora vigentes. Seria como se a cada novo ciclo, uma roleta cósmica fosse girada para sortear os novos valores vigentes no próximo sistema (universo). Esses ciclos de eterna criação e extinção de universos gerariam realidades potencialmente tão distintas, que o aparecimento humano estaria definitivamente fora de questão.
Na chamada física de partículas [7], ou física quântica (onde o espaço é medido na ordem de milésimos de milímetros), determina-se que cada partícula (partes do átomo – elétron, nêutron ou próton) pode ocupar livremente os infinitos pontos do universo, até o instante em que possa ser localizado (medido, identificado) em determinado lugar, em determinada posição, e fazendo parte da matéria de um corpo. Isso é chamado de “problema da medida”.
No universo macroscópico os objetos obedecem a uma física inflexível – pelo menos aparentemente, se sabemos a posição inicial, a direção, sentido e velocidade de partida, podemos calcular os próximos passos do objeto. Na física quântica isso não ocorre, não se pode prevê o exato comportamento de um elétron, se sabemos sua velocidade, não podemos informar com precisão a sua posição, e vice-versa. Poderemos ter apenas uma nuvem de possíveis locais, probabilidades de onde a partícula se encontra. Dessa forma, a informação que recebemos da matéria é apenas uma dentre infinitas possíveis.
Na prática, essa hipótese equivale a dizer que, além do universo que percebemos nesse exato momento, existem infinitos universos coexistindo paralelamente ao nosso universo habitado. Não podemos observar esses outros universos, estamos “presos” a essa realidade, onde a luz “congela” e identifica as partículas (o problema da medida), mas eles estão lá. Você pode está comendo biscoito ou rosquinha neste universo, e numa boate de dança streep tease em outro, infinitas as possibilidades.
Por essa teoria seriam possíveis aventuras como as de Marty McFly, do filme “De volta para o futuro”. Se existem infinitos universos, podem existir universos onde a configuração do espaço-tempo permita que os objetos macroscópicos desenvolvam velocidades superiores a velocidade da luz, coisa que é proibida no nosso universo pela teoria da relatividade geral de Einstein (E=mc²). Assim, máquinas do tempo poderiam transitar livremente entre as dimensões temporais.
Relatividade e física quântica, essas são as duas teorias modeladoras da visão moderna sobre o universo. Uma trata do imensamente grande e a outra do incrivelmente pequeno, protagonizaram um dos maiores debates no meio científico e transformaram radicalmente o que se sabia sobre a matéria e suas relações fundamentais. Albert Einstein disse que Deus não jogava dados, o astrofísico Stephen Hawking [8], acha que, ao que tudo indica, Deus era um grande jogador. Façam suas apostas!
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[1] Carl Sagan. Astrônomo estadunidense. http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Sagan
[2]Edwin Hubble, Astrônomo estadunidense. http://pt.wikipedia.org/wiki/Edwin_Powell_Hubble
[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Idade_do_universo
[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Singularidade_gravitacional
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Homo_sapiens
[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/Big_Crunch
[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%ADsica_de_part%C3%ADculas
[8] Stephen Hawking – Professor de cosmologia em Cambridge (E.U.A), em O universo numa casca de noz.
Já foi dito uma vez que, cada nova geração tem a sensação que o período de sua existência é o mais decisivo para a história da humanidade. Concordo inteiramente com essa afirmativa, e, do meu lado, faço questão de afirmar e expor os motivos do meu contentamento com o atual estágio do desenvolvimento da civilização.
Pra mim, viver no século XXI é extremamente empolgante, refletir sobre o quanto de avanço fizemos, o número de descobertas, a quantidade de conhecimento legada pelas gerações anteriores, e, principalmente, o uso que podemos fazer de tudo isso, me deixa realmente motivado, acho que nisto compartilho do sentimento de Carl Sagan [1]. Do século XVI para cá, conseguimos dobrar a expectativa média de vida da humanidade, isso devido, dentre outros fatores, ao desenvolvimento e avanço dos sistemas de saneamento básico e da invenção e uso de medicamentos, como as vacinas e os antibióticos. No campo da tecnologia, a humanidade conseguiu mandar o primeiro homem à lua, criar os computadores pessoais com processadores de textos à prova de erros de digitação e colocar um telescópio fora da atmosfera terrestre, que possibilitou a confirmação de inúmeras hipóteses científicas sobre o universo. A despeito da degradação ambiental, da pobreza e dos conflitos étnico-religiosos, temos o conhecimento de que precisamos para tomar uma decisão racional sobre o nosso futuro, o que precisamos é de pressão popular e vontade política para realizar as mudanças necessárias em prol do bem-estar humano. A ciência fez a sua parte.
Não obstante todo o progresso e maior conhecimento da natureza, surgem uma série numerosa de novas áreas de investigação e campos científicos para serem desbravados. E isso é bom, indica que os cientistas ainda terão seus empregos garantidos por muito tempo. Um desses grandes campos é o estudo da origem e propriedade do universo.
Talvez uma das teorias científicas mais bem conhecida, e das mais sólidas, seja a teoria do Big Bang. Essa teoria foi comprovada pelo astrônomo Edwin Hubble [2] (o que deu nome ao telescópio), e assinala que as galáxias estão todas se distanciando umas das outras e em velocidades crescentes. Essa descoberta torna possível até mesmo a determinação da velocidade em que essas galáxias estão se distanciando, isso é possível graças a uma ciência chamada de espectroscopia, que analisa a variação de luz emitida pelos corpos materiais.
Como sabemos que algo está se afastando de nós? Podemos usar a análise sonora, quando um carro que som está se aproximando de nós ouvimos um som grave, e quando ele vai se distanciando, ouvimos o som de forma diferente, um som agudo, isso tem o nome de efeito Doppler. Para as galáxias funciona da mesma forma, só que não ouvimos as galáxias, analisamos suas ondas de luz, que se comportam de forma equivalente as ondas sonoras. Quanto uma galáxia se afasta de nós, a cor da sua luz emitida (analisada por aparelhos) vai ficando cada vez mais avermelhada, assim consegui-se identificar o seu afastamento.
Com base nessas medições, pôde-se chegar a uma idade aproximada do universo, pois, se as galáxias estão todas se afastando umas das outras, implica que um dia estiveram unidas, juntas, e suas velocidade podem ser estimadas e podemos saber quando isso ocorreu. Esse cálculo estima em pelo menos 13,7 [3] bilhões de anos a idade do nosso universo e tudo o que existe nele.
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| (Expansão. Não explosão!) |
Esta constatação abriu um grande vácuo no nosso conhecimento, e deixa um enorme campo para indagações, podemos nos perguntar quem somos? Qual é a propriedade do universo? O que é a vida? Podemos aproveitar esse estado de “nova consciência” para nos localizarmos enquanto seres humanos. Nesse contexto, o astrônomo Carl Sagan destaca o inigualável poder de conscientização gerado pelo conhecimento científico, e faz um incrível exercício de reflexão sobre a espécie humana ao nos localizar em um calendário hipotético, esse exercício chama-se calendário cósmico e serve para nos revelar qual a real importância da nossa “criação”, e qual o valor relativo do ser humano em termos universais.
Sagan compara a história do universo a metáfora de um ano cósmico, sendo o primeiro dia do ano (1° de janeiro) coincidente com a grande expansão do nosso universo, nessa escala cada mês corresponderá a, aproximadamente, 1 Bilhão de anos [idade do universo (13,7 bilhões) dividido por 12 meses]. O planeta terra (com idade aproximada de 4,5 bilhões de anos – com estimativas oriundas de cálculos com base no decaimento radioativo dos elementos químicos existentes nas rochas) só teria se formado passados 2/3 do ano cósmico, isto é, na metade mês de setembro! Ou seja, a criação do nosso sistema solar, e com ele o nosso planeta, só se deu passados mais da metade da história do universo. Está curioso para saber qual seria a data do aparecimento da vida humana no cenário universal? Poupemo-nos dos “detalhes sórdidos” sobre a história da origem dos primeiros organismos replicadores, dos primeiros seres vivos, do surgimento dos répteis, das plantas e até dos insetos, todos esses nos antecedem na habitação do planeta terra. A vida humana (consideraremos para o caso o surgimento do homo sapiens sapiens [5], que data de, aproximadamente, 200 mil anos), nesse caso, a chegada do ser humano ao universo só aconteceria na noite de 31 de dezembro (último dia do nosso ano cósmico), por volta das 23 horas e 50 minutos!! Incrível!!
Não sei quanto a vocês, mas estou achando que não houve lá muito propósito ou senso de urgência no aparecimento humano na terra não, e você? Que acha? Tudo que nós vivemos e registramos até hoje, incluindo-se aí as pinturas rupestres, estão inseridos apenas nos últimos 10 minutos finais da história do universo vivida até nossos dias. Realmente desnorteador, não é? Parece que o “universo” não estava lá muito preocupado com a nossa possível existência não.
Podemos ir mais fundo ainda, se somos tão pequeninos no universo, será que existem outros povos, outras formas de vida em lugares distantes, será, ainda, que a nossa existência é real? Como saber se é real, se, ao que tudo indica, a vida se formou da matéria inorgânica de uma “sopa de proteínas”? Sabe-se que tudo que existe é formado dos mesmos elementos constitutivos, átomos de carbono, ferro, oxigênio, hidrogênio, hélio, sódio, etc. Todos formados no interior de estrelas “ferventes”. Tudo que existe é fruto dos mesmos elementos químicos, prótons, elétrons e nêutrons (para ficar só no básico) assumem configurações diversas para formar tudo que há no universo.
Dessa forma, fica difícil até definir o que seja a mente humana. Se tudo o que “mentalizamos” são reações, impulsos elétricos (elétrons em movimento) desencadeados entre os neurônios (células cerebrais), que, fundamentalmente, são “apenas” reações químicas disparadas no nosso cérebro. Todo esse processo, por sua vez, é oriundo dos estímulos sensoriais advindos do meio ambiente na forma de luz, calor, frio, dor, etc. Que também são interpretados através de impulsos elétricos.
| (Neo, rodando um algoritmo para congelar o tempo.) |
Tudo que nosso cérebro conhece da realidade, é percebido não diretamente, mas por meio de impulsos elétricos. Todo esse acervo de informação pode ser manipulado, não se pode ter garantias. Nesse cenário de realidade virtual e ficção científica, criações como a do filme Matrix tornam-se cada vez mais próximas da realidade. Poderíamos, realmente, viver em uma Matrix sem nunca se dar conta, eternamente escravizados pelos nossos sentidos.
Mas o número de esquisitices que são suscitadas pela evolução do conhecimento da estrutura da matéria ainda não terminou. A pesquisa e o questionamento sobre o que vem antes e depois do Big Bang, levou cientistas a hipóteses mais exóticas e extravagantes.
Uma delas diz, que se a massa existente no universo for maior que um dado valor crítico, toda essa massa (o universo todo) se desmoronará sob a ação da força de sua própria gravidade. O universo se curvará para dentro de si mesmo, até se condensar em um ínfimo ponto com densidade infinita, contendo toda a sua matéria, o universo terá fim em uma nova singularidade. Esse evento tem até um nome, é chamado de Big Crunch [6].
Essa hipótese abre uma “brecha” para um processo cíclico de geração do universo. O universo poderia alternar eventos de criação e extinção, dando corpo a um sistema eterno. No Big Crunch, novamente, todas as leis da física seriam anuladas, e seriam embaralhadas. O mundo físico é permeado de constantes fundamentais, temos a velocidade da luz, que tem um valor padrão de 300.000 km/s, velocidade que nenhum corpo macroscópico dentro do universo pode igualar; temos um valor constante para a capacidade de radiação eletromagnética; cada elemento químico (independente da sua localização no universo) apresenta valores característicos para o seu decaimento radioativo. Tudo isso é válido para o nosso universo. Na singularidade, esses valores são embaralhados, são aniquilados, o próprio tempo passa a não existir.
Em um próximo ciclo de “criação” do universo, é possível que essas constantes venham “sintonizadas” com valores totalmente diferentes dos agora vigentes. Seria como se a cada novo ciclo, uma roleta cósmica fosse girada para sortear os novos valores vigentes no próximo sistema (universo). Esses ciclos de eterna criação e extinção de universos gerariam realidades potencialmente tão distintas, que o aparecimento humano estaria definitivamente fora de questão.
Na chamada física de partículas [7], ou física quântica (onde o espaço é medido na ordem de milésimos de milímetros), determina-se que cada partícula (partes do átomo – elétron, nêutron ou próton) pode ocupar livremente os infinitos pontos do universo, até o instante em que possa ser localizado (medido, identificado) em determinado lugar, em determinada posição, e fazendo parte da matéria de um corpo. Isso é chamado de “problema da medida”.
No universo macroscópico os objetos obedecem a uma física inflexível – pelo menos aparentemente, se sabemos a posição inicial, a direção, sentido e velocidade de partida, podemos calcular os próximos passos do objeto. Na física quântica isso não ocorre, não se pode prevê o exato comportamento de um elétron, se sabemos sua velocidade, não podemos informar com precisão a sua posição, e vice-versa. Poderemos ter apenas uma nuvem de possíveis locais, probabilidades de onde a partícula se encontra. Dessa forma, a informação que recebemos da matéria é apenas uma dentre infinitas possíveis.
Na prática, essa hipótese equivale a dizer que, além do universo que percebemos nesse exato momento, existem infinitos universos coexistindo paralelamente ao nosso universo habitado. Não podemos observar esses outros universos, estamos “presos” a essa realidade, onde a luz “congela” e identifica as partículas (o problema da medida), mas eles estão lá. Você pode está comendo biscoito ou rosquinha neste universo, e numa boate de dança streep tease em outro, infinitas as possibilidades.
Por essa teoria seriam possíveis aventuras como as de Marty McFly, do filme “De volta para o futuro”. Se existem infinitos universos, podem existir universos onde a configuração do espaço-tempo permita que os objetos macroscópicos desenvolvam velocidades superiores a velocidade da luz, coisa que é proibida no nosso universo pela teoria da relatividade geral de Einstein (E=mc²). Assim, máquinas do tempo poderiam transitar livremente entre as dimensões temporais.
Relatividade e física quântica, essas são as duas teorias modeladoras da visão moderna sobre o universo. Uma trata do imensamente grande e a outra do incrivelmente pequeno, protagonizaram um dos maiores debates no meio científico e transformaram radicalmente o que se sabia sobre a matéria e suas relações fundamentais. Albert Einstein disse que Deus não jogava dados, o astrofísico Stephen Hawking [8], acha que, ao que tudo indica, Deus era um grande jogador. Façam suas apostas!
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[1] Carl Sagan. Astrônomo estadunidense. http://pt.wikipedia.org/wiki/Carl_Sagan
[2]Edwin Hubble, Astrônomo estadunidense. http://pt.wikipedia.org/wiki/Edwin_Powell_Hubble
[3] http://pt.wikipedia.org/wiki/Idade_do_universo
[4] http://pt.wikipedia.org/wiki/Singularidade_gravitacional
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Homo_sapiens
[6] http://pt.wikipedia.org/wiki/Big_Crunch
[7] http://pt.wikipedia.org/wiki/F%C3%ADsica_de_part%C3%ADculas
[8] Stephen Hawking – Professor de cosmologia em Cambridge (E.U.A), em O universo numa casca de noz.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Céu e inferno: origens inatas da crença sobrenatural.
Roberto Cesar
Quando somos pequenos, ouvimos várias estórias sobre monstros mitológicos e criaturas fantásticas, talvez, até, sobre pessoas com poderes incríveis, capazes de magias fabulosas, como homens que dominam poderes da natureza, que podem se transformar em outros seres, até mesmo em objetos inanimados, homens, ainda, que são imunes a ferimentos como tiros, facadas, etc. Contos que até bem pouco tempo eram muito freqüentes, principalmente aqui no Nordeste.
O quê? Não acreditam? Ou nunca ouviram falar de coisa parecida? Vejam então essa notícia de veiculada pelo portal G1 em 2009 [1]: “[...] A polícia da Nigéria está com um bode preso por suspeita de tentativa de assalto a mão armada. Como? simples! Vigilantes levaram o bode “criminoso” para a polícia afirmando que ele era um assaltante armado que havia usado magia negra para se transformar em bode para, assim, escapar à prisão pós tentar roubar um carro Mazda 323[...]”.
Muitos de nós, ainda, já presenciamos, ou até mesmo, participamos de seções de curanderia primitiva, onde para sanar qualquer enfermidade, submete-se o acometido a um rito que consiste em rezar sobre o local do ferimento ou doença com o auxílio de um ramo de determinadas plantas (ervas), as quais se atribuem poderes milagrosos.
Esses relatos exercem grande influência sobre o nosso desenvolvimento intelectual e psicológico. É preciso um grande período de tempo até que possamos finalmente nos livrar de sua influência, ou não. É interessante pensar como foi possível a formação dessas concepções, como foi que virtualmente todos os povos, em momentos variados e de diversas formas e variações, criaram esses mitos de representação da realidade.
Na Grécia antiga, por exemplo, os gregos formularam a criação de um mundo feito a partir da luta de divindades, como descrito na Teogonia de Hesíodo [2], todo o universo teria sido formado a partir do Caos [3], este teria dado origem a Gaia e aos demais deuses olimpianos. Essas divindades teriam criado todos os elementos existentes, como: a água, o fogo, o ar, etc.
Igual similitude podemos perceber nas representações indígenas, onde os astros, como o sol e a lua são representados ora como divindades, ora como pessoas, muitas vezes responsáveis pela manutenção da vida na terra e até pela criação de figuras mitológicas. Vejam como os índios craós [4] descrevem o Sol e a lua: “[...] chamam o herói mítico Pït, o Sol, também de Papam (Nosso Pai) e Deus e, por sua vez chamam o herói mítico Pïdluré, Lua, também de Pedro. Esses heróis, ambos do sexo masculino, são os transformadores de um mundo incriado. O Sol dispõe de certos conhecimentos que esconde de Lua: as ferramentas que abrem e cultivam a roça sozinhas, a palmeira que produzia buriti, o cocar vermelho e brilhante dado pelo pica-pau, a mulher [...]”
Percebemos que, as manifestações de crença sobrenatural independe da sociedade, ou seja, não está condicionado ao processo de socialização. O seu surgimento não depende de uma inculcação anterior. Certamente o processo de socialização ocasionará uma catequização segundo uma ou outra vertente de religiosidade, que é a forma de expressão ritualística pela qual se manifesta a crença sobrenatural, mas jamais condicionará o seu aparecimento.
Nestas circunstâncias, o que determina, então, o surgimento dessas expressões? Existe um campo especializado de estudo que, dentre muitas outras de suas ambições, pretende explicar esses casos, utilizando-se, como paradigma interpretativo, do conhecimento de evolução das espécies. A esse estudo dar-se o nome de psicologia evolucionista.
A psicologia evolucionista tem como referencial a concepção de que o homem também está sujeito as contingências determinadas pela evolução do seu código genético. Essa evolução faz com que ele aja, em determinadas situações, e adotem concepções de vida não alinhadas com o conhecimento adquirido pela experiência, e em desacordo com a análise racional.
A teoria evolutiva determina que, aos organismos vivos interessa na vida apenas duas atividades básicas, quais sejam, viver o maior tempo possível e deixar o maior número de descendentes. Sobre essa questão, o biólogo Richards Dawkins escreveu um livro de grande sucesso chamado de, O gene egoísta [5]. Nesse livro esboça-se como nós, diversas vezes, agimos de forma inconsciente e, muitas vezes, não sabemos o real motivo que determinou o nosso comportamento. Os genes parecem nos comandar e monitorar, parecemos “máquinas guiadas” pelos genes.
Utilizemo-nos, então, do viés evolutivo para investigar as origens da crença sobrenatural, porque, pelo menos ao que se indica, o “modelo padrão” de Ciências Sociais parece ter falhado nesse particular. Pensemos no ambiente primitivo, é necessário entender que o processo evolutivo é muito lento – podemos até dizer – mal comparando - que a evolução de uma espécie, para que seja percebida, pode levar centenas de milhares de anos, sendo assim, percebemos que em termos evolutivos temos um organismo e, principalmente, um cérebro adaptado a um ambiente primitivo. Ou seja, os genes nos condicionam a um comportamento igual ao do homem primitivo, a isso dar-se o nome de princípio da savana.
Lembremos, então, que o nosso aparato evolutivo “age” como se no ambiente primitivo assim estivesse. Mas não esqueçamos a origem da crença sobrenatural. Antes, porém, é indispensável a introdução de um ou dois “detalhes” metafísicos. É sabido que existem duas maneiras distintas de se cometer um equívoco, você pode cometer dois tipos de erros quanto a existência, ou não, de determinado elemento ou objeto. Num primeiro caso, você pode acreditar na existência da coisa, no entanto, está equivocado – o objeto inexiste de fato; em um segundo caso, você NÃO acredita na existência de algo, mas sua existência é verdadeira, outro erro, só que de um tipo diferente, percebe? Nos dois casos houve um engano cometido pelo indivíduo, mas no primeiro o juízo estava errado, só que o objeto NÃO existia (chamado de erro falso-positivo); no segundo caso, o juízo estava errado, só que o objeto existia de fato (chamaremos de erro falso-negativo). Com o entendimento dessas categorias, poderemos finalmente analisar a origem da crença sobrenatural.
Pense que você está em um ambiente primitivo, saberá que está em um ambiente hostil, pois, ainda não detínhamos a fabricação de armas, as técnicas de construção de fortalezas e do conhecimento sobre a natureza. Nesse ambiente o homem primitivo tinha que tomar decisões sobre entidades desconhecidas que, no caso de um julgamento equivocado, poderiam lhe custar a vida, como na observação de Miller e Kanazawa (2007) [6] “Nossos antepassados, quando se deparavam com alguma situação ambígua – como ouvir, à noite, ruídos sussurrantes nas proximidades ou ser atingido na cabeça por uma fruta grande que caiu de uma árvore -, poderiam atribuí-las a forças impessoais, inanimadas e involuntárias (como a força do vento que fez uma fruta madura cair na sua cabeça) ou a forças pessoais e intencionais (a exemplo de um predador ou de um inimigo oculto nos galhos das árvores e que joga frutas nas suas cabeças)”.
Dentre essas duas avaliações qual seria a mais vantajosa? Ou a menos arriscada? No caso de um erro de falso-positivo, quando se supõe a existência da fera que não existe, nossos antepassados não sofreriam dano algum, a não ser o custo de ser tornar um pouco neuróticos, mas no segundo caso, o erro tem um potencial nocivo muito maior. Na ocorrência de um erro de falso-negativo, onde se supõe a NÃO existência do inimigo, por exemplo, quando esse está à espreita, o hominídeo desavisado pagará com a vida, tendo como conseqüência a morte prematura de sua linhagem genética.
O grande matemático e filósofo francês Blaise Pascal (1623 – 1662), que, entre outras coisas, inventou a calculadora, utilizou-se de uma lógica similar para defender a crença em Deus, seu argumento é chamado de Aposta de Pascal. Para o pensador uma vez que não se pode saber com certeza a veracidade, ou falsidade, da existência de Deus, o mais sensato seria acreditá-lo, pois, na ocorrência do erro de falso-positivo o custo seria pequeno, o indivíduo arcaria apenas com algumas obrigações ritualístico-religiosas. Mas, na ocorrência do erro de tipo inverso, o dano poderia ser bem pior, notadamente, uma estadia durante toda a eternidade no inferno.
Assim teria surgido e prosperado a crença sobrenatural. Ela se alimentaria de um auto-engano perpetrado por nossos genes. Genes que estão adaptados as contingências e aos riscos de um ambiente que data de pelo menos 100.000 anos. Os genes que propiciavam a seus portadores inclinação natural à reverencia do sobrenatural tinham uma probabilidade muito maior de manter-se longe de situações potencialmente perigosas ao risco de morte, possibilitando assim, uma vantagem evolutiva. Ou seja, eles sobreviveram!
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[1]http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,MUL974501-6091,00-bode+e+preso+acusado+de+tentar+roubar+carro+na+nigeria.html
[2] Teogonia de Hesíodo – Poema épico do poeta grego Hesíodo.
[3] Caos – Deus da mitologia grega, gerador de todo o universo.
[4] Índios Craós - São índios habitantes do território denominado kraholândia: área que compreende as fronteiras entre os estados do Maranhão, Piauí e Tocantins.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Craós
[5] DAWKINS, Richard. O gene egoísta. SP. Companhia das Letras, 2007.
[6] MILLER, Allan S.; KANAZAWA, Satore. Por que homens jogam e mulheres compram sapatos: como a evolução molda o nosso comportamento. RJ. Prestígio, 2007.
Quando somos pequenos, ouvimos várias estórias sobre monstros mitológicos e criaturas fantásticas, talvez, até, sobre pessoas com poderes incríveis, capazes de magias fabulosas, como homens que dominam poderes da natureza, que podem se transformar em outros seres, até mesmo em objetos inanimados, homens, ainda, que são imunes a ferimentos como tiros, facadas, etc. Contos que até bem pouco tempo eram muito freqüentes, principalmente aqui no Nordeste.
O quê? Não acreditam? Ou nunca ouviram falar de coisa parecida? Vejam então essa notícia de veiculada pelo portal G1 em 2009 [1]: “[...] A polícia da Nigéria está com um bode preso por suspeita de tentativa de assalto a mão armada. Como? simples! Vigilantes levaram o bode “criminoso” para a polícia afirmando que ele era um assaltante armado que havia usado magia negra para se transformar em bode para, assim, escapar à prisão pós tentar roubar um carro Mazda 323[...]”.Muitos de nós, ainda, já presenciamos, ou até mesmo, participamos de seções de curanderia primitiva, onde para sanar qualquer enfermidade, submete-se o acometido a um rito que consiste em rezar sobre o local do ferimento ou doença com o auxílio de um ramo de determinadas plantas (ervas), as quais se atribuem poderes milagrosos.
Esses relatos exercem grande influência sobre o nosso desenvolvimento intelectual e psicológico. É preciso um grande período de tempo até que possamos finalmente nos livrar de sua influência, ou não. É interessante pensar como foi possível a formação dessas concepções, como foi que virtualmente todos os povos, em momentos variados e de diversas formas e variações, criaram esses mitos de representação da realidade.
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| (Percy Jackson, roubou o raio de Zeus) |
Igual similitude podemos perceber nas representações indígenas, onde os astros, como o sol e a lua são representados ora como divindades, ora como pessoas, muitas vezes responsáveis pela manutenção da vida na terra e até pela criação de figuras mitológicas. Vejam como os índios craós [4] descrevem o Sol e a lua: “[...] chamam o herói mítico Pït, o Sol, também de Papam (Nosso Pai) e Deus e, por sua vez chamam o herói mítico Pïdluré, Lua, também de Pedro. Esses heróis, ambos do sexo masculino, são os transformadores de um mundo incriado. O Sol dispõe de certos conhecimentos que esconde de Lua: as ferramentas que abrem e cultivam a roça sozinhas, a palmeira que produzia buriti, o cocar vermelho e brilhante dado pelo pica-pau, a mulher [...]”
Percebemos que, as manifestações de crença sobrenatural independe da sociedade, ou seja, não está condicionado ao processo de socialização. O seu surgimento não depende de uma inculcação anterior. Certamente o processo de socialização ocasionará uma catequização segundo uma ou outra vertente de religiosidade, que é a forma de expressão ritualística pela qual se manifesta a crença sobrenatural, mas jamais condicionará o seu aparecimento.
Nestas circunstâncias, o que determina, então, o surgimento dessas expressões? Existe um campo especializado de estudo que, dentre muitas outras de suas ambições, pretende explicar esses casos, utilizando-se, como paradigma interpretativo, do conhecimento de evolução das espécies. A esse estudo dar-se o nome de psicologia evolucionista.
A psicologia evolucionista tem como referencial a concepção de que o homem também está sujeito as contingências determinadas pela evolução do seu código genético. Essa evolução faz com que ele aja, em determinadas situações, e adotem concepções de vida não alinhadas com o conhecimento adquirido pela experiência, e em desacordo com a análise racional.
A teoria evolutiva determina que, aos organismos vivos interessa na vida apenas duas atividades básicas, quais sejam, viver o maior tempo possível e deixar o maior número de descendentes. Sobre essa questão, o biólogo Richards Dawkins escreveu um livro de grande sucesso chamado de, O gene egoísta [5]. Nesse livro esboça-se como nós, diversas vezes, agimos de forma inconsciente e, muitas vezes, não sabemos o real motivo que determinou o nosso comportamento. Os genes parecem nos comandar e monitorar, parecemos “máquinas guiadas” pelos genes.
Utilizemo-nos, então, do viés evolutivo para investigar as origens da crença sobrenatural, porque, pelo menos ao que se indica, o “modelo padrão” de Ciências Sociais parece ter falhado nesse particular. Pensemos no ambiente primitivo, é necessário entender que o processo evolutivo é muito lento – podemos até dizer – mal comparando - que a evolução de uma espécie, para que seja percebida, pode levar centenas de milhares de anos, sendo assim, percebemos que em termos evolutivos temos um organismo e, principalmente, um cérebro adaptado a um ambiente primitivo. Ou seja, os genes nos condicionam a um comportamento igual ao do homem primitivo, a isso dar-se o nome de princípio da savana.
Lembremos, então, que o nosso aparato evolutivo “age” como se no ambiente primitivo assim estivesse. Mas não esqueçamos a origem da crença sobrenatural. Antes, porém, é indispensável a introdução de um ou dois “detalhes” metafísicos. É sabido que existem duas maneiras distintas de se cometer um equívoco, você pode cometer dois tipos de erros quanto a existência, ou não, de determinado elemento ou objeto. Num primeiro caso, você pode acreditar na existência da coisa, no entanto, está equivocado – o objeto inexiste de fato; em um segundo caso, você NÃO acredita na existência de algo, mas sua existência é verdadeira, outro erro, só que de um tipo diferente, percebe? Nos dois casos houve um engano cometido pelo indivíduo, mas no primeiro o juízo estava errado, só que o objeto NÃO existia (chamado de erro falso-positivo); no segundo caso, o juízo estava errado, só que o objeto existia de fato (chamaremos de erro falso-negativo). Com o entendimento dessas categorias, poderemos finalmente analisar a origem da crença sobrenatural.
Pense que você está em um ambiente primitivo, saberá que está em um ambiente hostil, pois, ainda não detínhamos a fabricação de armas, as técnicas de construção de fortalezas e do conhecimento sobre a natureza. Nesse ambiente o homem primitivo tinha que tomar decisões sobre entidades desconhecidas que, no caso de um julgamento equivocado, poderiam lhe custar a vida, como na observação de Miller e Kanazawa (2007) [6] “Nossos antepassados, quando se deparavam com alguma situação ambígua – como ouvir, à noite, ruídos sussurrantes nas proximidades ou ser atingido na cabeça por uma fruta grande que caiu de uma árvore -, poderiam atribuí-las a forças impessoais, inanimadas e involuntárias (como a força do vento que fez uma fruta madura cair na sua cabeça) ou a forças pessoais e intencionais (a exemplo de um predador ou de um inimigo oculto nos galhos das árvores e que joga frutas nas suas cabeças)”.
Dentre essas duas avaliações qual seria a mais vantajosa? Ou a menos arriscada? No caso de um erro de falso-positivo, quando se supõe a existência da fera que não existe, nossos antepassados não sofreriam dano algum, a não ser o custo de ser tornar um pouco neuróticos, mas no segundo caso, o erro tem um potencial nocivo muito maior. Na ocorrência de um erro de falso-negativo, onde se supõe a NÃO existência do inimigo, por exemplo, quando esse está à espreita, o hominídeo desavisado pagará com a vida, tendo como conseqüência a morte prematura de sua linhagem genética.
O grande matemático e filósofo francês Blaise Pascal (1623 – 1662), que, entre outras coisas, inventou a calculadora, utilizou-se de uma lógica similar para defender a crença em Deus, seu argumento é chamado de Aposta de Pascal. Para o pensador uma vez que não se pode saber com certeza a veracidade, ou falsidade, da existência de Deus, o mais sensato seria acreditá-lo, pois, na ocorrência do erro de falso-positivo o custo seria pequeno, o indivíduo arcaria apenas com algumas obrigações ritualístico-religiosas. Mas, na ocorrência do erro de tipo inverso, o dano poderia ser bem pior, notadamente, uma estadia durante toda a eternidade no inferno.
Assim teria surgido e prosperado a crença sobrenatural. Ela se alimentaria de um auto-engano perpetrado por nossos genes. Genes que estão adaptados as contingências e aos riscos de um ambiente que data de pelo menos 100.000 anos. Os genes que propiciavam a seus portadores inclinação natural à reverencia do sobrenatural tinham uma probabilidade muito maior de manter-se longe de situações potencialmente perigosas ao risco de morte, possibilitando assim, uma vantagem evolutiva. Ou seja, eles sobreviveram!
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[1]http://g1.globo.com/Noticias/PlanetaBizarro/0,MUL974501-6091,00-bode+e+preso+acusado+de+tentar+roubar+carro+na+nigeria.html
[2] Teogonia de Hesíodo – Poema épico do poeta grego Hesíodo.
[3] Caos – Deus da mitologia grega, gerador de todo o universo.
[4] Índios Craós - São índios habitantes do território denominado kraholândia: área que compreende as fronteiras entre os estados do Maranhão, Piauí e Tocantins.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Craós
[5] DAWKINS, Richard. O gene egoísta. SP. Companhia das Letras, 2007.
[6] MILLER, Allan S.; KANAZAWA, Satore. Por que homens jogam e mulheres compram sapatos: como a evolução molda o nosso comportamento. RJ. Prestígio, 2007.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
O relativismo chique
Roberto Cesar
Desde que o homem adquiriu consciência, a primeira coisa que ele realizou foi uma construção da realidade.
Essa constatação ensejou grandes obras filosóficas que se dedicaram a investigar a capacidade, ou não, da mente em apreender a realidade. Teve início um dos mais frutíferos e inesgotáveis debates da filosofia.
Esse debate remonta a antiguidade clássica, quem nunca ouviu falar sobre o mito da caverna? Onde Platão esboça como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona, através da luz da verdade. Mas esse texto não pretende ser uma introdução geral ao tema, portanto, passemos logo ao que interessa. Notadamente uma análise do que se convencionou chamar de pós-modernidade ou, pós-modernismo.
Esse movimento talvez prescinda de uma definição formal, porém, para nosso debate, servirá o entendimento que o pós-modernismo é um movimento que congrega uma série de “correntes” mentais que pretendem lançar uma crítica arrasadora sobre o império da racionalidade e da ciência positivista – chamado comumente de logocentrismo.
Algumas dessas correntes, nomeadamente a mais propalada, a que se convencionou chamar de relativismo, assumiram um caráter artificial de elegância e erudição, sendo considerado chique e “antenado” quem usa uma meia dúzia de jargões oriundos do meio físico ou matemático para comunicar concepções enviesadas acerca da ciência e do conhecimento, notadamente que passem a impressão de crítica cultural da ciência como incapaz de traduzir a realidade.
As causas do surgimento desse movimento são nebulosas, a versão mais aceita estabelece que seu aparecimento se deva a uma reação a certo “mal-estar” causado pela modernidade, que é responsabilizada pelo surgimento de alguns dilemas modernos, associado ao que seria uma “ditadura” da razão e da lógica cartesiana, ambas alienantes e asfixiantes da criatividade intelectual, quando não culpadas pelas guerras e a fome no mundo.
A despeito dessas “justificativas”, especula-se que as verdadeiras motivações desse movimento, nada tenham a ver com a busca intelectualmente honesta do conhecimento e o real interesse pela verdade, e sim remontem os terrenos da política e da luta ideológica, visto que, são notadamente os setores alinhados com a “ala esquerdista” da cultura os seus maiores defensores e entusiastas.
Passemos a análise dos desdobramentos conceptuais da aplicação desse “clima” intelectual. A expectativa da verdade é pulverizada, elevando-se ao estatuto de fundamentalista toda e qualquer pretensão de objetividade científica.
As descrições dadas pela ciência são taxadas de “apenas” mais uma versão dos fatos, enquadradas no mesmo nível das descrições religiosas e mitos tribais da realidade.
Observemos esse raciocínio de Roberto Campos [1]:
“Todos nós temos de manter alguma relação com aquilo que podemos chamar de "mundo real". Mesmo um engajado "sociólogo da cultura", por mais enroscado que esteja na "desconstrução pós-moderna", ao apertar o botão da luz espera que a lâmpada acenda, e, ao virar a chave do carro, espera sem sombra de dúvida que as "relativas" leis da física e da química e a matemática em que são formuladas não pararão de funcionar naquele exato momento”.
O eminente biólogo Richard Dawkins [2] acrescenta:
"Há uma filosofia de salão elegante chamada relativismo cultural que afirma, na sua versão radical, que a ciência não tem mais direito em afirmar a verdade do que o mito tribal: a ciência é apenas a mitologia favorecida por nossa tribo ocidental moderna.
Aponte-me um relativista cultural a 10 quilômetros de altitude (dentro de um avião) e lhe mostrarei um hipócrita”.
Os entusiastas dessas ondas da moda, renegam qualquer pretensão a objetividade do conhecimento científico. Argumentam que toda e quaisquer aquisição de conhecimento refere-se apenas a mais um constructo social, estando inevitavelmente limitado e deformado pela percepção, assim seria impossível a concepção de verdade. A realidade seria apenas uma construção de cada sociedade humana, oriunda da historicidade e das nossas limitações culturais, sem um caráter universal.
Essa noção é totalmente falsa, e a natureza está repleta de exemplos que provam o contrário. Se assim o fosse, se para desvendar os fenômenos estivéssemos escravizados à limitação dos nossos sentidos, não detectaríamos todo o espectro eletromagnético. Esse espectro representa todas as ondas de energia eletromagnéticas existentes na natureza, algumas são possíveis de visualização – chamam-se espectro visível – outras não.
Se a verdade está inescapavelmente atrelada a nossa limitação perceptual e a noção que construímos “socialmente” da mesma, sendo que a propriedade para algo ser verdadeiro, é, em última análise, existir objetivamente, os raios X não deveriam existir, já que nosso “aparelho perceptual” não consegue detectá-lo e para essas correntes, não existe realidade independente dos sentidos.
Outro ponto fundamental que torna o “relativismo” ridículo, diz respeito ao seu fundamento ontológico. Talvez devido a uma macaqueação do postulado atribuído a Einstein, segundo a frase “tudo é relativo”. O relativismo se baseia na seguinte “lei”: “tudo é relativo, e só o relativismo é absoluto”.
Os relativistas, se entendessem de física, deveriam saber que “na” teoria da relatividade, que afinal são duas – a da relatividade geral e a da relatividade restrita, postula-se que a velocidade da luz é um fenômeno absoluto, independe de quaisquer observador, logo, nem tudo é relativo!
Esses enganos grosseiros se devem ao uso extravagante de termos e conceitos oriundos das ciências “físico-matemáticas". Esse uso abusivo se dá numa tentativa de revestirem-se do ar de credibilidade emprestados por essas ciências. Uso denunciado como imposturas mentais pela dupla de físicos Alan Sokal e Jean Bricmont [3] nos idos de 1997.
Aqui cabe frisar melhor do que se trata a denúncia supracitada. Alan Sokal, preocupado com a recrudescencia desses paradigmas pseudocientíficos resolveu realizar um experimento de campo, submeteu um artigo a uma revista científica estadunidense conhecida pela sua “filosofia” pós-modernista. O artigo chamava-se: Transgredindo Fronteiras, Rumo a uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica. O artigo, propositadamente, era composto do mais bizarro conteúdo pseudocientífico, e se propunha a verificar o verdadeiro caráter científico desse tipo de revista. O artigo foi aceito prontamente para publicação, o que causou uma série de discussões e constrangimentos mundo afora, inclusive no Brasil – vide folha de São Paulo.
Mas não é só aí que estão redondamente enganados os apologistas pós-modernos, eles também se propõem a subverter as leis da lógica, lei que nem a própria natureza ousa ultrapassar.
Os relativistas, absorvidos por uma sanha delirante de se insurgir contra tudo que se pareça, mesmo que remotamente, com uma lei universal e sequiosos por promover infindáveis “revoluções” no pensamento ocidental, não recuam nem diante do que existe de mais temerário na natureza. A transgressão das leis da lógica.
Como bem afirmou Brian Greene [3] "a natureza faz coisas estranhas. Ela vive perigosamente, mas toma o cuidado de esquivar-se do golpe fatal do paradoxo lógico".
O paradoxo lógico realmente “pode” destruir o universo, este se abstém daquele com prudência. O mesmo não ocorre com os relativistas, estes fundamentam sua “filosofia” em cima de areia movediça. Ignoram o princípio da não-contradição. Esse princípio lógico afirma que a uma substância não é dado ser e não ser algo ao mesmo tempo, é o “maior” princípio lógico de uma sentença.
A lógica é a ciência que em último grau é responsável pela validação de todo argumento coerente. Ela é o juízo e o sensor que diferencia o que é um raciocínio válido do que é uma idiotice sem tamanho.
Analisemos a sentença relativista: “tudo é relativo, e só o relativismo é absoluto”.
Se tudo é relativo, implica que não existe absoluto, e se o relativo é absoluto (pois tudo é relativo), implica que o relativo não existe. Pronto! Provamos por “A mais B” que o relativismo não existe.
Nós avisamos para se ter cuidado com o paradoxo lógico.
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[1] Roberto Campos – Foi Ministro da Fazenda e Economista. In: Folha de São Paulo, 1998.
[2] Richard Dawkins - Eminente Biólogo inglês. In: O rio que saia do Éden.
[3] Alan Sokal e Jean Bricmont – In: Imposturas Intelectuais.
[4] Brian Greene – Astrônomo Estadunidense. In: O tecido do cosmos.
Desde que o homem adquiriu consciência, a primeira coisa que ele realizou foi uma construção da realidade.
Essa constatação ensejou grandes obras filosóficas que se dedicaram a investigar a capacidade, ou não, da mente em apreender a realidade. Teve início um dos mais frutíferos e inesgotáveis debates da filosofia.
Esse debate remonta a antiguidade clássica, quem nunca ouviu falar sobre o mito da caverna? Onde Platão esboça como podemos nos libertar da condição de escuridão que nos aprisiona, através da luz da verdade. Mas esse texto não pretende ser uma introdução geral ao tema, portanto, passemos logo ao que interessa. Notadamente uma análise do que se convencionou chamar de pós-modernidade ou, pós-modernismo.
Esse movimento talvez prescinda de uma definição formal, porém, para nosso debate, servirá o entendimento que o pós-modernismo é um movimento que congrega uma série de “correntes” mentais que pretendem lançar uma crítica arrasadora sobre o império da racionalidade e da ciência positivista – chamado comumente de logocentrismo.
Algumas dessas correntes, nomeadamente a mais propalada, a que se convencionou chamar de relativismo, assumiram um caráter artificial de elegância e erudição, sendo considerado chique e “antenado” quem usa uma meia dúzia de jargões oriundos do meio físico ou matemático para comunicar concepções enviesadas acerca da ciência e do conhecimento, notadamente que passem a impressão de crítica cultural da ciência como incapaz de traduzir a realidade.
As causas do surgimento desse movimento são nebulosas, a versão mais aceita estabelece que seu aparecimento se deva a uma reação a certo “mal-estar” causado pela modernidade, que é responsabilizada pelo surgimento de alguns dilemas modernos, associado ao que seria uma “ditadura” da razão e da lógica cartesiana, ambas alienantes e asfixiantes da criatividade intelectual, quando não culpadas pelas guerras e a fome no mundo.
A despeito dessas “justificativas”, especula-se que as verdadeiras motivações desse movimento, nada tenham a ver com a busca intelectualmente honesta do conhecimento e o real interesse pela verdade, e sim remontem os terrenos da política e da luta ideológica, visto que, são notadamente os setores alinhados com a “ala esquerdista” da cultura os seus maiores defensores e entusiastas.
Passemos a análise dos desdobramentos conceptuais da aplicação desse “clima” intelectual. A expectativa da verdade é pulverizada, elevando-se ao estatuto de fundamentalista toda e qualquer pretensão de objetividade científica.
As descrições dadas pela ciência são taxadas de “apenas” mais uma versão dos fatos, enquadradas no mesmo nível das descrições religiosas e mitos tribais da realidade.
Observemos esse raciocínio de Roberto Campos [1]:
“Todos nós temos de manter alguma relação com aquilo que podemos chamar de "mundo real". Mesmo um engajado "sociólogo da cultura", por mais enroscado que esteja na "desconstrução pós-moderna", ao apertar o botão da luz espera que a lâmpada acenda, e, ao virar a chave do carro, espera sem sombra de dúvida que as "relativas" leis da física e da química e a matemática em que são formuladas não pararão de funcionar naquele exato momento”.
O eminente biólogo Richard Dawkins [2] acrescenta:
"Há uma filosofia de salão elegante chamada relativismo cultural que afirma, na sua versão radical, que a ciência não tem mais direito em afirmar a verdade do que o mito tribal: a ciência é apenas a mitologia favorecida por nossa tribo ocidental moderna.
Aponte-me um relativista cultural a 10 quilômetros de altitude (dentro de um avião) e lhe mostrarei um hipócrita”.
Os entusiastas dessas ondas da moda, renegam qualquer pretensão a objetividade do conhecimento científico. Argumentam que toda e quaisquer aquisição de conhecimento refere-se apenas a mais um constructo social, estando inevitavelmente limitado e deformado pela percepção, assim seria impossível a concepção de verdade. A realidade seria apenas uma construção de cada sociedade humana, oriunda da historicidade e das nossas limitações culturais, sem um caráter universal.
Essa noção é totalmente falsa, e a natureza está repleta de exemplos que provam o contrário. Se assim o fosse, se para desvendar os fenômenos estivéssemos escravizados à limitação dos nossos sentidos, não detectaríamos todo o espectro eletromagnético. Esse espectro representa todas as ondas de energia eletromagnéticas existentes na natureza, algumas são possíveis de visualização – chamam-se espectro visível – outras não.
Se a verdade está inescapavelmente atrelada a nossa limitação perceptual e a noção que construímos “socialmente” da mesma, sendo que a propriedade para algo ser verdadeiro, é, em última análise, existir objetivamente, os raios X não deveriam existir, já que nosso “aparelho perceptual” não consegue detectá-lo e para essas correntes, não existe realidade independente dos sentidos.
Outro ponto fundamental que torna o “relativismo” ridículo, diz respeito ao seu fundamento ontológico. Talvez devido a uma macaqueação do postulado atribuído a Einstein, segundo a frase “tudo é relativo”. O relativismo se baseia na seguinte “lei”: “tudo é relativo, e só o relativismo é absoluto”.
Os relativistas, se entendessem de física, deveriam saber que “na” teoria da relatividade, que afinal são duas – a da relatividade geral e a da relatividade restrita, postula-se que a velocidade da luz é um fenômeno absoluto, independe de quaisquer observador, logo, nem tudo é relativo!
Esses enganos grosseiros se devem ao uso extravagante de termos e conceitos oriundos das ciências “físico-matemáticas". Esse uso abusivo se dá numa tentativa de revestirem-se do ar de credibilidade emprestados por essas ciências. Uso denunciado como imposturas mentais pela dupla de físicos Alan Sokal e Jean Bricmont [3] nos idos de 1997.
Aqui cabe frisar melhor do que se trata a denúncia supracitada. Alan Sokal, preocupado com a recrudescencia desses paradigmas pseudocientíficos resolveu realizar um experimento de campo, submeteu um artigo a uma revista científica estadunidense conhecida pela sua “filosofia” pós-modernista. O artigo chamava-se: Transgredindo Fronteiras, Rumo a uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica. O artigo, propositadamente, era composto do mais bizarro conteúdo pseudocientífico, e se propunha a verificar o verdadeiro caráter científico desse tipo de revista. O artigo foi aceito prontamente para publicação, o que causou uma série de discussões e constrangimentos mundo afora, inclusive no Brasil – vide folha de São Paulo.
Mas não é só aí que estão redondamente enganados os apologistas pós-modernos, eles também se propõem a subverter as leis da lógica, lei que nem a própria natureza ousa ultrapassar.
Os relativistas, absorvidos por uma sanha delirante de se insurgir contra tudo que se pareça, mesmo que remotamente, com uma lei universal e sequiosos por promover infindáveis “revoluções” no pensamento ocidental, não recuam nem diante do que existe de mais temerário na natureza. A transgressão das leis da lógica.
Como bem afirmou Brian Greene [3] "a natureza faz coisas estranhas. Ela vive perigosamente, mas toma o cuidado de esquivar-se do golpe fatal do paradoxo lógico".
O paradoxo lógico realmente “pode” destruir o universo, este se abstém daquele com prudência. O mesmo não ocorre com os relativistas, estes fundamentam sua “filosofia” em cima de areia movediça. Ignoram o princípio da não-contradição. Esse princípio lógico afirma que a uma substância não é dado ser e não ser algo ao mesmo tempo, é o “maior” princípio lógico de uma sentença.
A lógica é a ciência que em último grau é responsável pela validação de todo argumento coerente. Ela é o juízo e o sensor que diferencia o que é um raciocínio válido do que é uma idiotice sem tamanho.
Analisemos a sentença relativista: “tudo é relativo, e só o relativismo é absoluto”.
Se tudo é relativo, implica que não existe absoluto, e se o relativo é absoluto (pois tudo é relativo), implica que o relativo não existe. Pronto! Provamos por “A mais B” que o relativismo não existe.
Nós avisamos para se ter cuidado com o paradoxo lógico.
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[1] Roberto Campos – Foi Ministro da Fazenda e Economista. In: Folha de São Paulo, 1998.
[2] Richard Dawkins - Eminente Biólogo inglês. In: O rio que saia do Éden.
[3] Alan Sokal e Jean Bricmont – In: Imposturas Intelectuais.
[4] Brian Greene – Astrônomo Estadunidense. In: O tecido do cosmos.
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