quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O PT e a PEC dos gastos, ou: Tira a mão do meu pobre

Desde 2003 o Brasil experimentou uma grande mudança político-social com a chegada do PT ao poder. Com a melhora substantiva da economia foi possível realizar políticas públicas de envergadura como as de transferências de renda melhorando de forma substancial a vida da população mais carente. Também foi possível a realização de grandes investimentos, como programas de aceleração do crescimento PAC e a implantação de IF’s e Universidades em áreas com forte demanda por educação.
No entanto, e sobretudo no momento em que a economia começa a “fazer água”, com a forte diminuição dos termos de troca de nossa balança de pagamento, com a queda substancial das mercadorias de exportação brasileira, petróleo, minério de ferro e soja, principalmente, e na esteira da crise econômica que se desenvolveu desde 2008, o governo petista se negou a ver a nova realidade que se impunha.
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A presidente Dilma continuou a gastar à vontade ainda antes da sua reeleição em 2014, mesmo quando a arrecadação do governo já havia registrado sucessivos déficits. Com base em forte endividamento do governo, a dívida pública interna, que aumentou fortemente desde 2010, chegou em 2015 a 66,2% do PIB. Situação insustentável.

A presidente, economista, deixou o país cair na lista dos países com grau de investimento qualificado como volátil, e liderando a “rabeta” dos países em nível de crescimento do PIB, só ganhando para Venezuela entre os anos de 2014 e 2016.
Entusiasta da contabilidade “criativa”, não escriturava as dívidas em atraso do Tesouro Nacional junto ao Banco do Brasil, dívidas essas que serviam para custear o Plano Safra, o que ficou conhecido como pedaladas fiscais. Dessa vez não funcionou o discurso de perseguida política, teve que deixar o Palácio da Alvorada com a votação do impeachment.
Um fator realmente ruim dessa era petista, foi o nível de poluição atingido nos debates políticos no Brasil. Os petistas sempre caracterizaram as críticas ao seu governo como preconceito de classe. Dividiram sempre o Brasil, seus projetos e políticas públicas, entre o “nós e o eles...”, entre os pobres e a “elite branca”, entre os defensores do povo e os traidores. Agora com a discussão da PEC dos gastos públicos, o nível de voracidade das vozes petistas alcançou novos níveis.
As esquerdas nunca conseguem esconder o seu grau de autoritarismo. Acham sempre que têm o monopólio sobre os pobres. O que não é de se surpreender, uma vez que o próprio Karl Marx fundou toda a sua teoria da alienação em cima do julgamento, se não preconceito? De que os proletários são incapazes, alienados, de interpretar a realidade... a alienação seria quase uma incapacidade cognitiva de o povo identificar a realidade. Mas claro, o próprio Marx, do seu lado, se sentia perfeitamente capaz de indicar o caminho “certo”, aquele que o povo deveria seguir.
Dessa forma, as esquerdas de hoje insistem em colocar o povo no “seu lugar”, pobre bom é o pobre que vota no PT, esse faz parte do povo “certo”. O PT nunca conseguiu reconhecer os erros do seu governo, mesmo em meio ao petrolão, maior esquema de corrupção identificado no Brasil, não fez nenhuma autocrítica. Credita o seu fracasso à “traição feita pelo povo”, o povo que “não sabe” que é pobre. Povo bom deve votar no PT. O resto são traidores, mal-intencionados, ou, alienados... Inconformados com a derrota que dizimou o partido nas eleições municipais, mais uma vez o PT quer criar o “povo certo”. Não vai funcionar.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Zé da Silva, a Inflação e a Renda real

Zé da Silva é assim como eu, nasceu na década perdida e conheceu a inflação de perto, época dos preços descontrolados. Ele serviu de personagem para crônica de Frei Betto sobre o efeito da economia sobre o homem comum. O homem que não entende o porquê do preço do arroz e do feijão - no meu caso do “PF”, da pizza e do iogurte – variar na “exata” medida, sempre pra cima, na subida e na descida do Dólar. Se sente deslocado.
Ultimamente, fiquei sabendo que foi Keynes que ao estudar o efeito da grande depressão de 1929, definiu que aos governos caberia em momentos de crise realizar inversões econômicas no sentido de que aumentando os gastos dos governos incrementarem a demanda por bens e serviços de forma a garantir os empregos e a renda. Não sei se ocorreria tal idéia a Zé da Silva, mas os “Zés” da Silva de hoje, também contribuem para o aumento da demanda, gerando emprego e renda, ao gastarem o seu “rico dinheirinho”.
Mas Zé da Silva sabe que vivemos em um pais caro. Barato mesmo é consumir apenas a cesta básica, basiquérrima, dessa que só consta mesmo o essencial e de onde são calculados os índices oficiais de inflação, esses que giram em torno de 5,5% ao ano. Variando em torno de 5,5% também é o reajuste de salário de Zé da Silva. Mas Zé da Silva sabe que para consumir qualquer outra coisa que não feijão e arroz, terá que arcar com aumentos que muitas vezes giram em torno de 30% anuais. As contas de Zé da Silva não fecham.
Chamam de “custo Brasil”, para tudo que é produto industrializado Zé da Silva pagará muito mais do que o mesmo produto comercializado nos países vizinhos do Brasil, países integrantes do Mercosul. Para beber vinho mais barato é melhor comprar importado do Chile. Se depois de juntar economias por uns sete anos, e pegando mais um empréstimo – sabendo que os juros do Brasil estão entre os maiores do mundo, Zé da Silva for adquirir um carro popular zero quilômetro, pagará 40% mais caro que o mesmo veículo vendido no México. Zé da Silva não entende.
O Presidente Lula tinha anunciado que o Brasil tinha virado país auto-suficiente em Petróleo. O petróleo era nosso mais uma vez. Reproduziu até aquela foto histórica de Vargas com as mãos cheias de dedos melados de petróleo. Ninguém entendeu, o preço da gasolina não baixou. E de lá para cá já aumentou umas “cem” vezes. Zé da Silva está inconsolável.
Sua renda cresce de maneira inversamente proporcional as suas dívidas no cartão de crédito, Zé da silva pensa em vender o carro quando a imprensa diz que a Petrobrás está quebrando e que a gasolina vai subir novamente. Pensou em ir embora do Brasil, tentar a vida como imigrante ilegal, quem sabe nos Estados Unidos, mas não suportaria viver longe dos filhos. Agora, na vã tentativa de equilibrar as contas, e como último recurso, pensa em fazer prova para cursar administração ou economia na modalidade EAD, aproveitando a expansão universitária continuada no governo Dilma, quem sabe até conseguir um emprego no Ministério do Planejamento. Zé da Silva continua a acreditar.

O falso moralismo ou a vigarice verdadeira?

Sinal dos tempos, a moda agora é o homem “progressista” e politicamente correto. No “Sarau dos Grã-finos” – lembrando o saudoso Nelson Rodrigues, é chique ser “prafrentex”, é “proibido proibir”, ou criticar. Seja cool, defenda cotas raciais, lei contra a “homofobia”, abrace árvores, engajamento para defesa de direitos de criminosos, suba o morro cantando "sou da paz", eis a agenda “pós-moderna”.
A condição de homem “pós-moderno” parece exigir mesmo até o policiamento à posições consideradas “machistas” ou grosseiras. É grosseiria pedir penas pesadas para criminosos, é selvagem. Se você é assaltado, surpresa, o verdadeiro criminoso é você. Você como classe média é eleito para culpado. Culpado porque, como classe, supostamente contribui para a miséria para que esse “pobre coitado” tenha que assaltar. Essa é a bela lógica dos grupos de direitos humanos e dos chiques em geral. Você? É falso moralista.
Quer um exemplo? Em uma coluna para a revista Época em que uma jornalista se propunha à crítica de um grupelho de estudantes que decidiram em uma festa universitária montar em garotas gordas, isso mesmo, montar – criando assim, o que seria o “primeiro rodeio universitário de gordas” – a colunista, ao invés de criticar, se defende, não sou moralista! Incrível. Os moralistas são os novos maconheiros.
A “filósofa” Marilena Chauí, dá um exemplo eloquente da mentalidade “democrática” em voga em vastos setores da esquerda. Para eles, você que vive indo e vindo do, e, para o trabalho, que estuda para melhorar, que se vira nos trinta, é reacionário. Como diria Clodovil, “você é o atraso do Brasil”. Só presta se for “socialista”. É isso que apregoa um bando de intelectuais autoritários, autoritários porque por detrás de um verniz onde se dizem libertários, tentam vilipendiar todas posições que não lhes são simpáticas. Tentam vender seus modelos como receitas para um mundo melhor. Acusando de intolerantes a todos quanto a eles se contraponham.
Acusam de fascismo a todos que não compram a sua militância política, raivosos. Velhos vigaristas, tentam desesperadamente formar novas legiões de militantes para seus projetos políticos, geralmente jovens com o cronograma vago e a cabeça desocupada. Sempre prontos para dar mais um viva à revolução. Mas que revolução?

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Off-topic

Texto que eu publiquei em um blog jornalístico da região (Blog do Jornalista Geraldo José) com denuncia/crítica sobre o funcionamento do DETRAN de Juazeiro-BA.(AQUI)

Geraldo,

Sabemos que o nosso país padece de um baixo índice de desenvolvimento humano, bem como de uma baixa qualidade na prestação dos nossos serviços públicos, de maneira geral. A condição de cidadão contempla uma gama de requisitos que sem os quais não se pode falar em cidadania, ou seja, ser cidadão pressupõe que o Estado possa garantir mínimas condições de atendimento aos indivíduos. A dignidade, a participação e o respeito à pessoa são pressupostos da condição de indivíduo cidadão. A essas condições, eu acrescentaria de livre vontade, as qualidades de coragem e senso de dever.
Como usuário do DETRAN de Juazeiro, sinto-me no dever de denunciar o tipo de “prestação de serviço” que aquele órgão dispensa à população. Meu primeiro contato com aquele órgão se deu ao tempo da “retirada” da minha primeira habilitação, nos idos dos anos 2.000. Nesse momento pude ser vítima do grande descaso e arrogância com que ali somos tratados. Fiquei estarrecido quando presenciei, na sala de provas, o fiscal do exame bater boca com várias pessoas, fora outros problemas. Os absurdos continuaram ainda na hora de receber a habilitação, procurei o órgão na data marcada e não tive informação alguma, quando procurei a atendente para me informar sobre a entrega da CNH recebi a informação que a habilitação não havia chegado e que não tinham nenhuma previsão para a mesma, tudo isso em um clima de extrema arrogância.
Mais presentemente (2012), com muito relutar, tive que tratar da transferência de um automóvel nesse DETRAN. Pude perceber que em 10 anos nada havia mudado. O clima de descaso e desrespeito ao indivíduo ainda impera. Os funcionários da vistoria têm a absoluta certeza que estão fazendo um favor às pessoas. Estão sempre destratando, discutindo com as pessoas, escolhem quem querem atender primeiro e se o motor do veículo estiver “quente”, simplesmente dizem que não vão fazer nada, porque não são obrigados. Se chover, idem, param imediatamente o serviço, mesmo trabalhando em local coberto. Sucessão de absurdos. Presenciei até mesmo uma funcionária gritando e esbravejando várias vezes com alguém (quase psicótica), reclamando que a água mineral era do seu setor e somente para os funcionários, não daria água a ninguém.
Nos acostumamos ao horror, presenciamos diariamente o desrespeito e a arrogância ocuparem o lugar da urbanidade e da decência no serviço público. É como se ali fosse um lugar paralelo, um limbo onde as condutas não precisassem responder aos códigos e aos preceitos administrativos. Olhamos com descrença e pavor a submissão do interesse público. Marginalizados, ambos, sociedade e “cidadão”.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Marx contra os foras de série

Karl Marx, em a ideologia alemã, confrontou os argumentos metafísicos de Hegel e Feuerbach sobre a ideologia, disse que cabe ao homem o lugar de autor da história, a história só existe como construção humana. Mas, os homens só podem transformar a sua história até certo limite. E esse limite não é dado por condições sobrenaturais, nem pelo debate puro e simples das idéias, mas pelas condições materiais existentes e pela ação que os homens empreendam sobre estas. Essas serão as condições que definirão o grau de modificação de poderá ser imposta pelos indivíduos.
Você pode dizer, e com toda razão, que Marx disse o óbvio, mas é justamente aí que reside a sua genialidade. É interessante notar, como diversas vezes é muito difícil perceber as implicações de uma constatação óbvia.
Steve Jobs morreu recentemente, e foi imediatamente venerado por sua genialidade, bem como por sua capacidade de implementar verdadeiras revoluções tecnológicas. Projetar e construir grandes maravilhas capazes de transformar a vida moderna, causando grande impacto no mundo.
Ipods, Imacs, Iphones e Tablets, como poderíamos viver sem eles? Tudo muito essencial. Mesmo que eu nunca tenha colocado as mãos em um equipamento da Aplle, até hoje. Em nossa sociedade há um grande culto aos homens de empreendimento, pessoas que com o seu enorme talento e expertises natos imprimem os rumos das transformações do mundo. Só nos esquecemos de avaliar o que vem antes deles, deveríamos lembrar do óbvio.
Deveríamos levar em consideração as condições pré-existentes, como disse Marx. Sir Issac Newton era louco, perseguiu e difamou o seu colega matemático e filósofo Godwild Leibnitz mesmo após a morte deste, exigindo ser reconhecido como único inventor do cálculo diferencial (campo avançado da matemática). Porém, em um instante de fina lucidez, reconheceu que para descobrir a lei da Gravitação Universal, havia se servido de incontáveis contribuições e de diversos cientistas, a exemplo de Galileu Galilei e Nicolau Copérnico, “enxerguei longe porque estava sobre os ombros de gigantes”, disse ao final.
Há um livro dedicado ao estudo do óbvio, esse livro é consagrado aos foras de série, aos transformadores. Chama-se “Fora de série, o que está por trás das pessoas de sucesso” [1], e desvenda as causas prováveis que possibilitaram aos desbravadores a condição de transformar a sua geração. Não raro, isso se deveu as oportunidades e privilégios de acesso a informações e experiências não acessíveis as pessoas comuns, suas condições pré-existentes, Marx de novo.
Ao iniciar o livro, o autor faz alusão a um tal de efeito Mateus. No livro de Mateus, capítulo 25 e versículo 29, está dito: “Porque a todo aquele que tem será dado e terá em abundância; mas daquele que não tem, até o que tem será tirado”. E é verdade, está escrito. O autor pesquisa estatísticas de jogadores profissionais do mundo do hóquei, listas dos magnatas mais bem sucedidos dos Estados Unidos e até a biografia da banda de Rock, Os Beatles.
Dessa análise, chega-se a conclusão que, mesmo com o excepcional talento que se possa atribuir a cada um desses personagens, a soma da possibilidade de treinamento, para que se consiga um nível de domínio da arte em nível de excelência, uso de ferramentas adequadas a realização de cada tarefa e um senso de oportunidade que permita ao indivíduo o grau de aderência entre suas aptidões e o que o público ou os seus clientes esperam obter, compõem, efetivamente, o resultado do sucesso. Sem a junção desses fatores, o talento não chegaria nem a se desenvolver, assim são os talentos perdidos que todos conhecemos mundo à fora. Na verdade, um gênio de extrema grandeza pode até mesmo atrapalhar a realização do seu sucesso.
Como um bom exemplo desses talentos desperdiçados por falta de oportunidade ou de compreensão, lembro agora de dois grandes matemáticos, Niels Henrik Abel, norueguês, e o francês, Évariste Galois. Abel desde cedo se revelou um prodígio em matemática, mas acabou morrendo de turbeculose e na pobreza com a idade de 27 anos. Entre os contemporâneos de Abel, houve um profundo desinteresse em reconhecer a sua obra, poucos mesmos eram capazes de julgar a sua matemática, simplesmente sua produção era avançada demais para alguns círculos intelectuais, tão à frente estava a capacidade de seu gênio. Depois, foi assim descrito por Charles Hermite [2], outro grande matemático, “Abel deixou o suficiente para manter os matemáticos ocupados durante quinhentos anos”. Simplesmente incrível.
Évariste Galois viveu intensamente a atividade política do seu tempo, as reverberações da revolução francesa, chegou mesmo a ser preso. Mas também era um gênio da matemática, mesmo se dedicando a ela como atividade secundária, tamanho era o gênio do francês. Com a idade de 16 anos, Galois já submeteu um grande trabalho de matemática a Universidade, porém, esse foi sucessivamente esquecido e perdido antes que pudesse defender a sua obra. Galois morreu logo 3 anos depois, envolvido em um duelo de sangue, sem que visse seu trabalho reconhecido.
Viver significa realizar um trabalho de adequação entre o nosso eu mais pessoal e a cultura. Os valores culturais servirão como as referencias que irão determinar para onde os esforços individuais de adequação irão se direcionar.
Cada sociedade constrói os padrões e valores aceitos na sua organização interna, esses valores determinarão quais os indivíduos serão melhor sucedidos. Essas referências são mutáveis com a passagem do tempo, sendo que em cada época serão reconhecidas por seus padrões e modelos característicos. Nesse contexto, surgem os “fora de série”, aqueles que tiveram a prevalência das características valorizadas por sua sociedade.
Marx desprezava o gênio individual, mesmo ele tendo sido um. Preferia acreditar nas potencialidades e no poder de transformação das massas organizadas. Toda a sua filosofia foi devotada a isso. Entendia que o futuro deveria ser escrito pelas forças coletivas, essas forças construiriam o futuro, o novo mundo. Seriam os marcos reguladores de uma nova cultura. Construções ideológicas, como as de Hegel, que dizem que é no debate intelectual que se constrói e se define a realidade, só serviriam para alienar as massas e mantê-las o poder da dominação. A realidade é essencialmente material, é na ação política onde se constrói a sociedade.
Hoje a filosofia está bem mais rasteira. Na verdade, ela foi substituída mesmo pela abordagem do marketing, o que se aplica hoje são os veículos de comunicação para formar a mentalidade coletiva. É essa propaganda que eleva figuras como Steve Jobs à categoria de mitos e líderes carismáticos, de transformadores do mundo. Na verdade eles não transformaram o mundo, o oposto disso, só contribuíram para que ele se mantivesse o mesmo.





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[1] Outliers – Fora de série. 2008.
[2] Charles Hermite – In: O último teorema de Fermat. 1998.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A felicidade não faz sentido

Calma que esse texto não é bem o que o título sugere (na verdade, em certo sentido, ele pode ser até pior), o título está colocado como uma espécie de propaganda agressiva. Bem, existe um “vlogueiro” bastante conhecido chamado Felipe Neto, ele sempre posta uns vídeos na internet fazendo alguma crítica, geralmente ao comportamento dos jovens e das ditas “tribos” juvenis, essas críticas sempre começam com o título de “Não faz sentido”.
Aí achei que poderia utilizar desse tema para também falar sobre alguns comportamentos que com o tempo a gente passa a notar nas pessoas, e que são característicos pela reprodução de alguns padrões. Ok, que padrões seriam esses? Bom, quando a gente começa observar como as pessoas vivem e reagem em diversas situações, corriqueiras ou excepcionais, podemos inferir alguns comportamentos padrões.
Hoje em dia, existe uma grande apologia da mídia que pressiona as pessoas a construírem em volta de si um mundo de fantasia, um clima de artificialidade é construído. Um exemplo disso é o sentimento artificial de felicidade. A criação desse clima envolve as pessoas em uma atmosfera de felicidade fabricada, sem substância. O grande poeta Carlos Drummond de Andrade disse que “Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade”, eu até concordo que a felicidade pode não ter motivos, mas que ela tem que ter causa, ah tem.
O problema é que hoje isso parece não ser mais necessário, se desconhece a causa que mantém as pessoas com esse sentimento de constante ânsia, de necessidade de demonstrar que estão felizes, que as levam a “inventar” motivos que justifiquem um sentimento de felicidade que na realidade inexiste. Os status das redes sociais testificam isso, geralmente estão repletos de declarações de felicidade fingida e os perfis com fotos com rostos de alegria fabricada. As pessoas tiram milhares de fotos de “coraçõezinhos feitos com as mãos”, esses se proliferam na internet feito peste. Também posam para fotos no espelho com sorrisos amarelos forçados, sempre com a mesma pose, ou então sem camisa para mostrar que são fortes e não têm um único neurônio.
Quem afirma que está feliz hoje, parece estar destinado a ser o deprimido de amanhã. Isso acontece, necessariamente, porque não se trata de um verdadeiro sentimento de felicidade. As pessoas oscilam entre a euforia de um dia de sol e palidez de um final de semana chuvoso. Não raro se verifica que os “nicks” que ontem estampavam frases como, “mais um dia feliz”, “pense positivo, Jesus te ama”, “o mundo é bom”, etc. Hoje escrevem, “triste aqui”, “porque as pessoas são ruins?”, “desanimada”, etc. As afirmações de felicidade não representam um motivo ou causa existencial substantiva, são tão sem conteúdo que logo perdem a convicção. Servem apenas como um meio de tentar maquiar o vazio existencial e a angústia dessas pessoas.
É apenas uma construção social, uma construção bem superficial, diga-se de passagem. Um movimento arquitetado pelo marketing para aprisionar pessoas em uma redoma de alienação. Essa redoma cria o mal, mas também elege o seu antídoto, o consumo, o divertimento pueril, o passatempo estéril, a adoração boba de celebridades. A televisão maquina e sustenta uma geração kid (adoradores de bobagens), os ídolos pop (formados na rapidez de um relâmpago), sem conteúdo e sem noção para realizar bizarrices. Na verdade, a bizarrice é a própria “alma do negócio”. É isso, que maravilhosa definição, vivemos na época onde o burlesco e o sem sentido é idolatrado e elevado à categoria de padrão social, triste fim. É tudo um grande negócio, mas para que se mantenha esse negócio é preciso que se crie uma geração de bestializados pelo consumo de lixo, de pessoas incapazes de criticar os produtos que estão consumindo e os valores que sustentam esses produtos.

Faz parte desse processo a criação de uma “cultura do fácil”, o que seria isso, é um sentimento (outro) onde as pessoas se sentem confortáveis para esperarem que os seus objetivos se realizem sem que os mesmos requeiram muito esforço pessoal para que sejam alcançados. Isso funciona da seguinte forma, por exemplo, a pessoa espera passar no vestibular sem estudar com afinco, mais ou menos como que realizado por um milagre divino. Por isso é que existe tanta gente pedindo a Deus força e misericórdia para aprovações em vestibulares e concursos, bem como esperam uma ajuda extra das divindades para obter sucesso no mundo do trabalho. Com tanta incompetência e preguiça mental, é necessário mesmo que ocorra um dilúvio de bênçãos na vida desse povo.
Isso é real, não duvide. Eu mesmo já lecionei aulas de matemática em uma escola pública, aqui, do Estado do Pernambuco, era notório o baixo nível de conhecimento de todas as salas do ensino médio (1°, 2° e 3° anos), e uma aluna no primeiro ano colegial um dia protestou (quando eu digo protestou, significa que ela gritou alto e grosseiramente) porque não conseguia aprender um conteúdo lecionado por mim durante um mês, progressão aritmética (P.A), como eu já sabia de antemão a causa das deficiências dos alunos (falta de estudo) – esse rendimento se reproduzia por todas as disciplinas, diga-se de passagem -, apenas perguntei se ela havia revisado o assunto em algum momento em sua casa, a aluna respondeu tranquilamente que não. Pasmem, a aluna NUNCA havia disponibilizado tempo para estudar o assunto em sua casa e, mesmo assim, esperava sinceramente aprender o assunto! Ou seja, por alguma forma incompreensível e mágica que eu não compreendia, ela esperava entender um assunto sem dispensar esforço, é ou não é um exemplo inequívoco de maluquice? Não pode existir um exemplo melhor para esse tipo de cultura. Claro que isso é incentivado pelos meios de comunicação e reforçado por um sistema de ensino que aprova indiscriminadamente alunos sem as mínimas condições.
Ninguém quer se concentrar em mais nada, estudar pra quê? se o sistema me aprova? A mídia vende a idéia de que tudo pode ser conseguido sem esforço, é tudo uma questão de dons genéticos e de popularidade. Dar-se início a uma busca desenfreada pela popularidade, com a imitação de gestos, falas e roupas – extravagantes – de qualquer pessoa em evidência. Disseminam-se as modas de grupos excêntricos como, “emos”, “góticos”, “geeks”, “otakus”, etc. Todas siglas sem sentido e vazias por excelência, chamam a atenção apenas pelo jeito estranho de se vestir.
Parece que ser introspectivo e mais racional quanto a apelações baratas, apresentações de mau gosto e ser intolerante quando à superficialidade e a idolatria da besteira viraram pecados capitais. Vira um chato, essa é a palavra. Parece mesmo ter surgido na sociedade uma doutrina de culto a asneira e a cretinice. Um nivelamento da sociedade pelo que ela tem de pior.
É possível formas de ser feliz sem cair na armadilha de construir uma fantasia alegórica em substituição à dura realidade? Claro que sim, para isso é preciso aceitar como natural que na vida os momentos de tristeza e de felicidade se alternam como a noite e o dia. Que isso é ordinário, que não é digno de nota, ninguém precisa (ou merece) saber disso, poupe os “twits” imbecis. Que não é preciso criar motivos inexistentes para afastar os momentos de tristeza e solidão, eles são parte integrante de qualquer existência. Emoções menores não precisam ser destacadas, isso leva à distração e perca de foco. É preciso saber esperar as grandes conquistas, elas são difíceis e demoradas, precisam de empenho e dedicação, enquanto isso, pode-se se concentrar nos pequenos momentos do dia-a-dia, na rotina. Aproveitar para ler mais, ou para trabalhar mais, deixar que com o tempo apareçam as realizações, junto com os verdadeiros sentimentos, que serão sustentados por um profundo conhecimento, fruto da dedicação. Tudo isso providenciará uma felicidade plena e duradoura. Ela vem naturalmente, não precisa declarar.